Escrito em por & arquivado em Minhas Crônicas.

 

Foto: Marcelo Seabra

 

“Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver. Forte eu sou, mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar…” Os versos são da música Travessia de Milton Nascimento e servem pra ilustrar o sentimento de muitos mineiros na última semana por causa de um atacante que “mineiramente” negociou sua transferência do Atlético-MG para o Cruzeiro. Fred, que no início da carreira já vestiu azul, foi ídolo e galã no Fluminense (aqui entre nós, no quesito “borogodó”, ele é imbatível) decidiu mudar sua sorte mais uma vez e voltou para a toca da raposa. O sentimento de amor traído, de dor de cotovelo, tomou conta dos atleticanos. Mas nada que um copinho de cachaça e uma boa música não curem. Ouçamos mais um trechinho de Travessia… “Minha casa não é minha e nem é meu este lugar…” É, sabemos o que é isso, mineiros. Aqui, no Pará, “travessia” é o termo usado para estas “transferências”, pois os dois maiores rivais do futebol do Estado são vizinhos. Quando o ídolo de um defende as cores do outro, dizemos que ele atravessou a Almirante Barroso. E foram tantas e históricas travessias, que me bateu uma nostalgia danada, nessa entressafra insossa, sem nenhuma contratação empolgante. Vamos fazer um TOP FIVE dessas travessias? Porque pra matar a saudade, só mesa de bar… Manda mais uma garrafa, garçom, porque a história é longa:

 

Cacaio – Artilheiro, xodó e responsável pelo primeiro título do Paysandu no Brasileiro de 1991, Cacaio foi embora pro Guarani-SP mas não vingou. Um ano depois ele voltaria para Curuzu em um pacote que envolveria também a contratação do lateral Jura, do cabeça de área Valdeir, além do atacante Cacaio. Ele veio, trotou pelo gramado, saudou a torcida bicolor, mas… atravessou. Sim, o Remo fez uma proposta e levou o 7 junto com Jura. Na época, se dizia que aquele que vestia listrado, não se daria bem vestindo azul (e vice versa). E foi o que aconteceu. Cacaio, fora de ritmo, não vingou em 1992. Foi um fiasco e viu o Paysandu ser campeão com 4 vitórias consecutivas em RexPa. Gols de Vitor Hugo, Edil, Figueiredo e Mendonça… o Nego Bala. Mas em 93, Cacaio se redimiu e foi campeão paraense com um timaço que tinha Biro-Biro, Alberto, Agnaldo, Belterra, Tarcísio etc… a escrita estava quebrada.

 

Edil – Revelado pelas categorias de base do Paysandu, Edil marcou em RexPa pelos dois lados. Começou a aprontar já no primeiro, em 1987, sob a tutela de Givanildo Oliveira. Em 1992, também pelo Papão, e já consagrado como “Highlander”, o folclórico Edil fez o segundo da sequência de 4 vitórias bicolores em cima do Leão, dando o título do segundo turno ao Paysandu. Mas foi em 97, incorporando o “Braddock” com a camisa do Remo, que Edil fez o gol que talvez tenha sido o mais importante em sua história nos clássicos. O terceiro, ao apagar das luzes, em uma arrancada bem a seu estilo, na chuva, selando a vitória azulina de 3 x 1 em cima do Paysandu, no jogo 33 do indefectível tabu.

 

Rei Arthur – No Brasileirão de 1991, dentre as poucas derrotas que teve, o Paysandu levou uma sapatada do Rio Branco do Acre: 5×1. Naquele jogo, um tal Arthur reinou absoluto. O Paysandu, claro, foi atrás de sua contratação. O jogador foi anunciado como reforço. Mas assim que chegou ao aeroporto, Arthur foi cortejado por um agente do Remo, e nunca nem chegou a por os pés na Curuzu. Foi um dos maiores ídolos da história azulina, transferindo-se depois para o Porto de Portugal.

 

Velber – Aquela transferência do Arthur ficou muito tempo entalada na garganta dos bicolores. O troco veio com a contratação de Velber “Risadinha”, uma jovem promessa azulina. Depois de ter sido campeão brasileiro, em 2001, o Paysandu procurou incrementar a base para outras competições. O advogado Alberto Maia filho, hábil como um meia esquerda, conseguiu vencer todos os empecilhos jurídicos que prendiam Velber ao Remo. O Risadinha acabou se tornando um dos principais personagens

de Copa Norte, Copa dos Campeões e Libertadores. De quebra, anos depois, voltou para se aposentar e levou uma Copa Verde aos 37 anos, quando Maia já era presidente do clube.

 

Eduardo Ramos – Titular absoluto e indiscutível dono da camisa 10 bicolor em 2013, Eduardo Ramos seguiu para o Remo em 2014. Veio para vestir a camisa 33. A provocação foi um tiro no  pé dos azulinos. Traído pela sorte, Ramos pediu pra mudar para a clássica 10. E aí, deslanchou. Foi muitas vezes ao céu, e algumas, ao inferno. Artilheiro em RexPa, autor de gols salvadores no minuto final, campeão paraense, cultuado e também culpado por muitos altos e baixos do clube nestes anos.

 

Todas estas contratações desceram ardendo goela abaixo. Mas no final, a gente aprende que isso é a vida. Que amores vem e vão e cabe a nós a resignação, e a gratidão por ter dividido parte da vida deles conosco. E que sejam felizes em suas jornadas. E nada de secar ou stalkear a vida do ex. Porque pela “lei do ex”, é quase certo que ele venha a marcar contra o seu time. E nessa hora, a gente toma mais um trago, e chora ouvindo Nelson Gonçalves:

 

“Diga que já não me quer. Negue que me pertenceu, que eu mostro a roupa (o escudo) molhada, e ainda marcada pelos beijos teus!”

 

Feliz 2018, amigos! Que tenhamos ainda muitas travessias para chorar e, melhor ainda, comemorar. Segue o jogo.

 

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Camisaria Caboquisse

 

7 comentários para “Uma saudade chamada TRAVESSIA”

  1. Eugênio Regis

    Ótimo texto. Todas as menções nos deixa um pouco amargurado, mas faz parte da rivalidade. Um incremento a mais no doce sabor da paixão pelo futebol. Feliz 2018!

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  2. Charles

    Muito bom o texto com referência a música travessia. Ficou muito bom mesmo.
    As rivalidades são somente no Campo, acho interessante esse vai e vem dos ídolos, vestindo as camisas dos adversários.
    PLAC PLAC PLAC PLAC PLAC

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  3. Elton Simões Martins

    Pra mim foi a do Eduardo Brahma.
    Pois ele acertou com o adversário estando ainda no meio do campeonato e com contrato ainda vigente a época.

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  4. Gerson Brito da Rocha

    Ninguém cantou tão bem sobre “traição” que Lupcinio Rodrigues: “Você sabe que é ter uma amor meu senhor, ter loucuras por uma mulher, e depois encontrar esse amor meu senhor, nos braços de um tipo qualquer…” Traição, esse é o sentimento que fica diante da rivalidade existente. Capaz inclusive de fazer o torcedor ignorar um outro termo muito comum, quando o xodó vai embora, o de mercenário.

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