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Foto: Assessoria de Imprensa Paysandu

Como presente de grego do destino, amanheci o sábado do Re x Pa  com conjuntivite nos dois olhos. Pequeninos e tortos, os bichinhos mal conseguiam ficar abertos, tamanho grau da infecção. Pânico na jornalista esportiva em um dia de seu jogo favorito, decidindo uma vaga pra final da Copa Verde e na véspera da decisão do segundo turno do Parazão, na qual estaria trabalhando, pela TV Cultura. Meu oftalmologista cortou logo o barato: 5 dias de tratamento intensivo, com colírio antibiótico e  sem direito a lentes de contato. Aaah, ok, tudo bem, use seus óculos, é tão charmoso, diria você, solidário leitor. Seriam… Não quando se tem 15 graus de miopia a serem exibidos na lente fundo de garrafa de cerveja e ainda por cima estão com as hastes quebradas!

Mas o que você tem a ver com meu drama nesse final de semana? Nada! Mas tem a ver com o Re x Pa que me trouxe, durante 90 minutos, a alegria de voltar a enxergar o futebol com olhos de encanto. Há muito tempo, muito tempo mesmo, não sabia o que era isso. Pois bem, amigos, eu diria que quem não assistiu ao Re x Pa desse sábado, perdeu um dos melhores clássicos dos últimos tempos. A conjuntivite doía quando vi o goleiro bicolor Emerson defender com a ponta dos dedos o chute de Marco Goiano. Rapidinho, me anestesiei. Com as mãos trêmulas, equilibrando os óculos sem hastes no nariz, pensei : “Esse Re x Pa promete!” Prometia e cumpriu.

Vimos valentia, vimos um Augusto Recife, com quase 40 anos, implacável na marcação de um maestro Eduardo Ramos, que mesmo assim ainda ensaiou um chapéu durante o segundo tempo. Palmas para o talento da estrela solitária da companhia azulina. O Remo, até a expulsão de Max, até por precisar vencer, levava maior perigo, mesmo com as investidas “pensas” de Levy em cima de um perdido Raí na lateral. Com a entrada de Silvio, o paraense que um dia chegou a trabalhar como padeiro, o Leão equilibrou os lados. Foi de Silvio o cruzamento para o gol contra de Lombardi. Ma oooe!, gol “SBT”, para explodir o clássico campeão de audiência.

Meus olhos já não ardiam mais de dor, varavam de luz. Os óculos chegaram a cair quando vi as canetas de Fabinho Alves e do Imperador Luis Carlos. Sim, o Re x Pa teve lances de puro talento! Teve emoção, com o choro de Betinho, saindo de campo, derrotado pela dor de uma contusão, depois de marcar o primeiro gol para o Paysandu. O banco de reservas bicolor, inteiro, foi consolar o artilheiro do jogo na beira do gramado. Teve surpresa, quando Ciro voltou a marcar e jogar bem, se doando em campo, jogando pelos lados e centralizando, depois que Silvio entrou. Teve senso de coletividade, quando Cearense deixou de concluir a jogada para rolar a bola, marotamente, para Raí fazer o terceiro gol. Teve uma festa linda das duas torcidas, se revezando entre um comovente “Eu acredito” e o provocativo “olé”

E, finalmente, teve a pedalada de Raí, o tão criticado Raí do primeiro tempo, ineficiente na marcação, mas que depois da entrada de Rodrigo Andrade (a atuação do menino da base também foi de encher os olhos), foi decisivo. Antes da pedalada, ainda houve o drible, para então pedalar e golpear mortalmente o rival no pescoço, na comemoração do gol. Foi aí que esfreguei meus olhos, que jorravam uma branca hemorragia de alegria , para ter a certeza. Estava eu diante de um Re x Pa com requintes de cura momentânea.

Chico Buarque cantou que “os poetas, como os cegos, sabem ver na escuridão”, Nesse 23 de abril, estava quase cega, mas a beleza desse jogo inesquecível me trouxe a poesia de volta. Mesmo em meio à escuridão. Bendito e clarividente Re x Pa!

17 comentários para “Um Re x Pa para fazer até cego voltar a enxergar”

  1. Maria moraes

    Meu coração se encheu de orgulho e emoção lendo esta linda crônica. Obrigada syanne

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  2. manoel valentim

    O imediatismo do futebol paraense faz com que muitos bons jogadores sejam queimados precipitadamente. Jogam um ou dois jogos e se não forem bem são descartados pela crônica, imprensa e diretoria. Temos com um exemplo perfeito, o caso do Borges, e outros tantos, que depois em outras praças mostraram que eram bons.
    O Raí estava sendo vítima desse imediatismo. Estava sendo classificado como limitado, mas está mostrando seu valor. Ainda há tempo de se corrigir isso.

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  3. Marcelo Coelho

    Clássico dos MILAGRES, com certeza um dos melhores dos último tempos. Que experiencia em Sianne Neno!

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  4. paulo silber gama alves

    Quando a gente escreve depois de ter os olhos iluminados por alguma emoção, é este brilho que acende, no texto, a qualidade de farol. E muita gente, ao ler o que escrevemos, acaba vendo pela luz dos nossos olhos, testemunhando até o que não viu. Eu não vi o jogo, mas depois de ler a crônica da Syane, tenha a exata noção do que perdi. Parabéns ao Papão pela vitória; salve o Leão, pelo reencontro com o bom futebol.
    Ave, Syane, pelos olhos cheios de graça e banhado pelas lágrimas que os lubrificam e iluminam o belo texto.

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  5. carmem piani

    👏👏👏👏👏Antes de qualquer comentário. Você se supera a cada dia,fiquei emocionada com sua crônica, mesmo com a visão comprometida você deu um show de visibilidade nos lances observando tudo e todos.Show Syanne.👏👏👏👏

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  6. cf

    Parabéns! Foi fantástico o que escreveu. Também uma jornalista desse quilate, só poderia sair uma maravilha de escrita. Parabéns

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  7. pedro paulo ribeiro de carvalho

    sensacional sua historia e de deixa a sensação que um re x pa bem jogado e magico e dar orgulho te ser paraense parabéns pra você

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  8. Guilherme Santos

    O seu texto é o melhor que já li sobre o RE X PA. Tão emocionante quanto o jogo. Parabéns!!!

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  9. Adriana Araújo

    Nossa que texto fantástico. Realmente foi um ótimo jogo, ainda bem com um final maravilhoso com a belíssima Vitoria do Papão. Melhoras.

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  10. MAURÍCIO FAÇANHA

    Minha querida amiga e admirada repórter. Você foi explicitamente clara no sentimento que este RE X PA nos gerou. Vimos 2 times incansáveis para chegar em seus objetivos. Como um bom Bicolor terminei o dia sem voz e feliz de ter a certeza que hoje temos “um banco” que substitui a altura os titulares!! Top!!!!

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  11. Andrey Rodrigues

    Rodrigueana como sempre. Já virou lugar-comum o elogio, mas é verdade.Nelson devido sério problema de vista, tinha o match ditado pelo filho Jofre. Lembra? Por isso lia o jogo melhor que qualquer um.

    Parabéns, Syanne.

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