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O assunto do dia, nesta quinta-feira, entre a torcida do Paysandu, foi a suposta contratação de Pikachu pelo Flamengo. Em uma rede social, um perfil não oficial do clube divulgou que o jogador seria a nova contratação do time carioca. Mas Pikachu desmentiu a contratação e desabafou sobre a acusação de alguns torcedores de que ele estaria com rendimento abaixo do esperado nesses últimos jogos, por conta de um possível pré contrato com o Flamengo.

Confira o que o lateral bicolor falou:

 

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Amigos, a derrota do Paysandu contra o América-MG já era esperada. Sejamos realistas, o time mineiro é tão encardido quanto uma camisa de comercial do OMO. O coelho, do velho Giva, joga em profundidade, e nessa terça, esbanjou objetividade. O Paysandu pecou por seu futebol de toquezinhos  pro lado, sem poder de penetração. Mas como um náufrago no meio de uma ilha deserta, a torcida ainda se agarra a uma bola da Wilson. “Somos” todos Tom Hanks, no filme “Náufrago”. Vencendo os 4 jogos que faltam, o Paysandu pode conseguir o milagre do acesso à série A. A torcida se agarra desesperadamente a essa chance. Vejamos o porquê de essa bola da Wilson, essa última esperança, estar nas mãos do Paysandu:

Na briga pela última vaga, 4 times estão acima do Paysandu: Bragantino, Bahia, Sampaio e Santa Cruz. Avaliando os próximos confrontos desses concorrentes imediatos, percebemos que eles terão um caminho de pedras pela frente. O Bragantino, por exemplo, vai ter uma bimbarra. Vai pegar o Ceará, em pleno Castelão, com o time jorrando sangue contra o rebaixamento. Dentro de casa, o Bragantino vai jogar contra o Sampaio, que também se engalfinha pelo G4. E pra complicar mais ainda a vida do Braga, ele pegará por último o Náutico, também na briga pelo G4 e lá, em Recife!

Outro acima do Paysandu é o Santa Cruz, que também terá 3 pedreiras pela frente: o Bahia, fora de casa, também concorrente direto ao acesso; o Vitória, em casa, mas sempre uma carne de cabeça e pra completar, enfrenta o Botafogo, louco para assegurar o título da série B por antecipação nesse jogo.

O Sampaio, outro concorrente direto à essa última vaga, também não terá vida fácil. Mas seus dois últimos jogos serão fora de casa, com concorrentes difíceis: o Bragantino, que briga pelo G4 e o CRB, que briga contra o rebaixamento. Por fim, temos o Bahia como rival nessa briga pela última vaga. O time da Claudia Leitte vai lutar diretamente com 2 concorrentes ao acesso: Santa Cruz (dentro de casa) e Náutico (fora).

Por outro lado, o Paysandu, NA TEORIA, é o que vai ter a missão menos penosa. Vejamos:

O Mogi Mirim, apesar de o jogo ser lá em Mogi, já está rebaixado e portanto, apenas cumprindo tabela. Depois do Mogi, o Paysandu vem jogar duas partidas em Belém, contra dois adversários considerados “café com leite”: Luverdense e Criciúma, ambos sem chances no G4 e sem riscos de rebaixamento. Por fim, o time bicolor jogará fora de casa contra o Oeste, que, a essas alturas, já deverá ser um franco atirador.

O problema, bem sabemos, é que o Paysandu parece ter gostado da fama de se enrolar com adversários teoricamente fáceis. Foi assim nas duas partidas contra o Macaé e nos jogos em Belém, contra o Náutico e Sampaio. Mas por que não acreditar que agora, na reta final, o time que “quando perde é por descuido, mas depois vem a virada” vai rasgar essa lei de tropeçar no fácil e fazer simplesmente o que tem que fazer? Com o instinto de Pollyana, aquela da literatura francesa, uma otimista nata, e agarrados, como náufragos, numa bola Wilson, muitos torcedores ainda acreditam no sonho do acesso. Mas e os jogadores? O que os motiva? Vejamos o que o lateral João Lucas, que só ficou de fora de um único jogo, contra o Macaé, por causa do nascimento do seu filho, tem a dizer:

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(Foto retirada do site oficial do Paysandu)

Se vocês soubessem o que aconteceu no vestiário do Paysandu, no intervalo do jogo contra o CRB, ficariam orgulhosos. Mesmo que você, que está lendo esta crônica, não seja bicolor, ficaria feliz em conhecer mais uma história que evidencia o triunfo da alma. Foi ela que fez toda a diferença, amigos. Não a alma que virou bordão, no raso almanaque de psicologia do futebol moderno. Mas a alma genuína, aquela que arranca o melhor de você quando é mais preciso. Aquela que vira e revira sua alma do avesso. E que é capaz de fazer virar jogos impensáveis.

O técnico do Paysandu já tinha anunciado que Zé Carlos, o artilheiro da série B, que veste a camisa do CRB, teria que ter uma marcação especial. Fez o óbvio: colocou o volante Capanema como um pitbull, arfando no cangote do atacante alagoano. Capanema, o monstro do combate, o rei da marcação. Mas, por um desses desastres que vez em quando acontecem, quando os anjos tortos resolvem descer para brincar um pouco nos gramados de futebol, Capanema escorregou na entrada da grande área bicolor e deu de presente o gol para o artilheiro. Atônita, a torcida bicolor parecia não acreditar. Não, não poderia ter sido ele, o “capamito” destruidor, pedra na chuteira de ídolos rivais, não! Mas foi. Deu se então o improvável. Capanema, o mito da torcida bicolor, passou a ser execrado por parte dos torcedores que estavam nas cadeiras do Mangueirão. Alguns só faltaram lhe chamar de quadrúpede de 28 patas. Em campo, depois da falha, o jogador estava visivelmente atordoado. Errava passes, parecia carregar um Mangueirão inteiro nas pernas. Alguns gritavam pela sua saída. Eu mesma, cheguei a pensar que seria desumano permanecer com aquele Capanema combalido em campo. Tolinha..Pareço ter esquecido, por alguns instantes, a mística superadora que rege o futebol.

Pois bem, amigos. Deu-se então, o milagre. No vestiário, o atacante Leandro Cearense reuniu os jogadores e, com os olhos varados de luz, ordenou: “precisamos dessa vitória para o Capanema!” O time voltou para o segundo tempo com a mesma camisa, os mesmos jogadores.  Mas, definitivamente, o Paysandu não era o mesmo. Tudo começou a dar certo. Todos corriam. Até a camisa 10 que já tinha vestido, só esse ano,  Rogerinho, Leandro Canhoto, Carlinhos, Leleu (toc toc toc) , Djalma, Carlos Alberto, Valdívia e Roni, parecia se ajustar no peito do tão criticado Aylon. E foi ele, o menino Aylon, com a 10 nas costas, que empatou o jogo para o Paysandu. O mais improvável aconteceu depois. Capanema, o anti herói do início do jogo, fez o gol da virada bicolor. Teriam mais três bolas na rede depois. Mas o gol do Capamito deixava tudo novamente em seu devido lugar. O Paysandu passava a ser de novo o Paysandu da torcida. O que corre, o que não se entrega, o que faz sofrer, o que surpreende. Mas a partir de agora, a responsabilidade não é só deles. A torcida bicolor também precisa voltar a ser o que era e abraçar o time nesses dois últimos jogos em casa, dias 14 e 21, contra Luverdense e Criciúma. Os jogadores pedem para que você, torcedor, os carreguem no colo nesse momento. O acesso é difícil, mas ainda possível. No jogo contra o CRB, mesmo com menos de 15 mil torcedores, foi a torcida quem empurrou o atacante Heliton Jr, se arrastando em campo porque voltou recentemente de uma contusão, para fazer o gol que selou a goleada bicolor de 5 x 1. Ouça o depoimento do goleiro Emerson aqui embaixo, em uma entrevista pelo rádio, relatando a conversa com Wellington Jr, e saiba porque o torcedor bicolor tem a obrigação de sair do sofá e ir ao Mangueirão, acreditar no sonho do acesso.

Eu escolhi acreditar. E você?

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30 de outubro de 2014. Se o torcedor do Paysandu entrasse hoje em uma maquina do tempo e voltasse um ano, ele estaria em lua de mel com a vida. Afinal, o Papão da Curuzu vivia o frisson pelo recente acesso à série B e tinha na figura do técnico paulista Mazola Junior, uma das maiores referências. Hoje, ele volta a Belém como adversário do Paysandu. Comanda o CRB, que está em 11º lugar, mas segundo o próprio Mazola, veio para ainda brigar pelo acesso. O treinador me recebou na manhã desta sexta-feira, 30, no hotel onde está hospedado, junto com a delegação do time alagoano. No bate papo, Mazola foi mais Mazola do que nunca. Cutucou o ex rival Clube do Remo, disse que o Paysandu hoje ainda não tem estrutura para estar na série A e que o fato de não aceitar pressão de dirigentes para escalar jogadores de empresários, o faz um técnico diferente.

Mazola elogiou a evolução na estrutura do clube, a chegada do novo ônibus, mas acha que o time ainda não está pronto para subir. Confira a entrevista.

Há exatamente um ano, você era um ídolo no Paysandu, que tinha acabado de conseguir o acesso à série B. Como é voltar hoje a Belém tendo o Paysandu como adversário e podendo ser o “responsável” pelo não acesso do time à série A, em caso de um tropeço do time em casa?

Mazola: Essa é boa… (risos) Vão botar na minha conta se isso acontecer também, é? Normal, profissionalismo acima de tudo. De falta de profissionalismo, nunca ninguém pode me acusar.

É uma situação diferente vir aqui hoje para enfrentar o Paysandu, que foi um clube que me marcou muito e eu tenho uma simbiose inacreditável com a torcida. Mas futebol é interessante, porque tem essa dinâmica toda. Uma hora você tá aqui, na outra está lá. Só que hoje eu estou  do outro lado e  muito feliz. O CRB também é um clube grande, que está  investindo no futuro. Ano que vem, vai ganhar um dos melhores centros de treinamento do país, tem um presidente muito forte, que teve uma empatia muito grande comigo. Eu espero  fazer um grande jogo em Belém, até porque a gente tem ainda objetivos no campeonato.

O CRB está em 11º lugar, praticamente sem riscos de rebaixamento e sem chances de brigar pelo acesso. Qual a motivação de vocês para esse jogo e para as  5  partidas restantes?

Mazola: Eu discordo de você. Ainda existe, sim, chance de acesso e existe, sim, chance de rebaixamento. Principalmente com o crescimento do Ceará. Mas, penso que o grande objetivo do CRB era permanecer na série B e isso, vamos conseguir. Sabemos que o acesso é muito difícil, mas a gente tem esperança de acabar o campeonato muito bem. A maioria dos jogadores vai ter o contrato encerrado agora em novembro e tá todo mundo querendo fazer bonito., buscando espaço, ou no CRB ou em outro clube.

Eu estou  muito feliz no CRB. No últimos 9 jogos, perdemos apenas um. No segundo turno, o time vem muito bem e por coincidência, consegui estabilizar a equipe  a partir daquela vitória contra o Paysandu, por 3 x 0, ainda no primeiro turno. Até então, tava muito difícil. Eu cheguei na sétima rodada e o time tava mal. A ansiedade é muito grande para esse jogo, até porque eu tenho muito carinho pela torcida bicolor e vai ser meu reencontro com ela.

Você tem acompanhado os jogos do Paysandu? O que está achando do time?

Mazola: Procurei assistir aos  últimos 4, 5 jogos e também me informei sobre a equipe. Penso que o Paysandu tá dentro do seu objetivo, fazendo um campeonato muito bom. É difícil pra uma equipe que acaba de subir, almejar alguma coisa a mais. Acho que o campeonato do Paysandu tá feito e eles vão ter mais um ano para aprimorar as condições de trabalho. Para que, aí sim, se consolide em uma condição de subir para a série A, que é o lugar onde o Paysandu merece estar.Mas subir, com consistência e não subir pra cair.

Em relação ao time, ele é muito bem treinado pelo Dado. Tem 2 laterais fortíssimos na parte ofensiva, um goleiro muito bom, que inclusive foi indicação minha ao Paysandu. Ele já era pra ter vindo no ano passado comigo, trabalhamos juntos no Cuiabá.

Você acha que o Paysandu se acomodou em campo depois que conseguiu garantir a permanência na série B?

Mazola:  É muito difícil para quem está longe, como eu, detectar algum problema interno. Mas ainda dá tempo de uma reviravolta e de um final feliz. Tem jogadores muito experientes no grupo para isso.

A sua saída do Paysandu, no ano passado, foi marcada por informações desencontradas sobre os valores envolvendo a sua possível renovação de contrato. Alguns torcedores chegaram a lhe acusar de mercenário por você ter pedido um salário maior do que a diretoria queria pagar. Como você lidou com isso?

Mazola: Essa é a minha grande mágoa. A minha não permanência no Paysandu, onde eu tinha todo um projeto para o clube nessa série B não foi tão sentida quanto eu ter passado por isso, por esse tipo de julgamento. A forma como as coisas foram colocadas, como denegriram a minha imagem, me deixou muito chateado. Tenho certeza que o torcedor consciente entendeu tudo o que aconteceu. Eu queria a valorização do meu trabalho e da minha comissão técnica. Não houve um acordo financeiro e eu não senti  apoio, por parte da diretoria de futebol, para que eu continuasse com a saída do Vandick. Então foi simples o que aconteceu, O que acontece em qualquer clube, dentro de uma relação profissional. Da forma como justificaram a minha não permanência, me magoou bastante. Por tudo o que eu fiz no Paysandu. Por tudo o que nós fizemos, eu e minha comissão técnica. Mas, vida que segue. Eu tô muito feliz em Maceió, minha família toda tá lá, até meu cachorro está. As condições são muito boas e eu tenho um salário muito parecido com o que eu mereço. Ao contrário do que muita gente andou falando, um monte de bobagens, um monte de inverdades.

Tudo passa. Assim como sou explosivo, não guardo mágoa de ninguém. O mais importante hoje é que eu e o Paysandu estamos na série B e fazendo um campeonato muito bom.

Você aceitaria um possível convite para treinar um  outro clube do Pará?

Mazola: Difícil, viu, muito difícil. Treinar “o outro lado da avenida” (risos) é muito difícil. Não me vejo lá. Até o nosso treinamento de hoje a tarde, eu pedi para que não fosse no Remo. É um lugar onde eu tenho certeza que não vou me sentir bem.

A sua passagem pelo Paysandu, além do acesso, foi marcada também por declarações polêmicas. Você se arrepende de algo que falou?

Mazola: De nada. Fui autêntico, falei o que eu sentia. Sempre fui assim, falo o que penso, eu não penso pra falar.

Tenho um comportamento diferente da linha de conduta da maioria dos técnicos no Brasil. Então, quando você se posiciona de maneira contrária ao poder, todo mundo acha que é polêmica. Não é polêmica, eu nunca falei nenhuma mentira.

O mercado de trabalho hoje no futebol recebe uma influência muito grande dos grupos de investimentos e isso não tá errado, a lei permite isso. Só que eles acabam tomando conta dos clubes. Existe uma pressão muito grande para escalar jogadores. Mas ainda bem que, felizmente, no Paysandu e no CRB agora, não tive esse problema.

Os jogadores gostam muito de mim por isso. Não existe influência externa nenhuma para que eu escale jogador A ou jogador B.Comigo é dentro de campo que as coisas se resolvem.

Poderia escrever sobre muitas coisas nessa nova fase do blog, com mais um patrocinador. Queria falar sobre Eduardo Ramos e a polêmica questão: mito ou não? Por que afinal a torcida bicolor não aceita que ele faz a diferença? Porque, simplesmente, a ausência de um camisa 10 de respeito faz atualmente a maioria da torcida do Paysandu sofrer com o tal “complexo de vira latas”, enquanto do outro lado Eduardo Ramos carrega o acesso azulino nas costas, com o mesmo número 10 na camisa. A importância de ER10 do outro lado, portanto, faz muita ferida na corte alvi-azul. Por mais que doa muito admitir. Mas não, não, não me joguem pedras, torcida bicolor! Quero falar de coisa boa. Portanto, vou deixar o assunto Eduardo Ramos para outra oportunidade, quando as duas torcidas estiverem de bem com a vida. Quem sabe quando o Remo for campeão e o Paysandu conseguir o acesso (sim, eu ainda acredito)

Quero falar sobre um tema mais pertinente do que nunca: a violência contra a mulher. Foi tema de redação no Enem, depois de uma semana em que o machismo da sociedade brasileira gritou mais alto do que uma torcida reclamando pênati em uma decisão. Uma menina de 13 anos, participante de um programa de culinária na TV, foi vítima de pedofilia asquerosa nas redes sociais e o Congresso Nacional (sempre ele) acha que pode legitimar uma mulher a ter um filho de um estuprador. O tema da redação não tem partido. É uma questão de cabeças pensantes.  Mas, infelizmente, revelou um Brasil doente de ideias. Muita gente esperneou. Muita gente achou que discutir a questão é ideologia. Esses, não devem respeitar nem a mãe.

Em meio a esse terreno movediço, levanto a mão e digo: alto lá, ainda temos o que comemorar e o que é melhor, nos estádios! Como invasora oficial do Clube do  Bolinha do futebol paraense, primeira mulher a ir aos estádios para trabalhar na cobertura do futebol, eu vos digo: os ogros estão virando minoria no futebol. Quando comecei na crônica esportiva, qualquer mulher vista nos estádios era recebida com o repugnante coro de “bu….”

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Não era fácil, amigos! Mas aos poucos, as luluzinhas foram ocupando seus espaços nas arquibancadas e nas redações de TV, jornal e até rádio esportivas. A macharada foi se acostumando com a presença cada vez maior das mulheres no mundo do fuebol e hoje, os gracejos continuam, mas agora em frequência bem menor. Viramos parceiras na Draft do lado de fora do estádio e cúmplices nos comentários sobre o jogo, lá dentro.

E às mulheres que ainda se sentem incomodadas com o assédio nos estádios, eu aconselho a vestir a camisa do seu time e ir! O Paysandu precisa de você no sábado. O Remo, idem, no domingo. Vá ao Mangueirão, sem preocupação. E volte a ler este blog, sem moderação! Quanto à polêmica sobre a qualidade de Eduardo Ramos, a gente abre uma cerveja Gold qualquer dia desses para conversar. Tim tim!

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O Remo hoje é a antítese de uma célebre frase de Nelson Rodrigues. O maior cronista esportivo de todos os tempos dizia que “não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”. Que me desculpe o Mestre, mas ele partiu antes de conhecer um homem chamado João Carlos dos Santos Amaral. João é o técnico Cacaio. O comandante que é puro coração, pura intuição. O grande nome do acesso azulino à série C. Aquele que transformou um time desacreditado, com salários atrasados, em uma cooperativa de bravos revolucionários.

Desde a dupla classificação, pelo Parazão e Copa Verde, em cima do maior rival, o Remo de Cacaio parte pra cima da bola como quem vai atrás de um prato de comida. Depois da vitória de 3 x 1 em cima do Operário, o Mangueirão virou uma selva de mais de 33 mil leões ensandecidos comemorando o acesso. Enquanto isso, o técnico declarava, docemente, aos microfones, que iria doar seu salário em cestas básicas a quem precisa, como pagamento da promessa que fez pelo acesso conquistado. Nada mais Cacaio do que esse gesto.

Nada mais Cacaio, também, do que a transformação de Eduardo Ramos e Levy nesses últimos jogos. Exemplos de superação. Eduardo Ramos, aquele mesmo que foi ridicularizado enquanto vestia a mítica camisa 33 e que hoje virou um mito real, carregando nas costas a clássica camisa 10. Levy, o lateral que foi entortado pelo driblador rival, em uma partida do Parazão, e que no jogo decisivo desse domingo incorporou um touro em fúria. Até sair expulso, por abusar das provocações. Faz parte da catarse.

A humildade, a eficiência, a estrela, o carisma de Cacaio, o transformaram em unanimidade. É, Nelson Rodrigues, mais uma vez vou discordar de você. No futebol paraense, a unanimidade não tem nada de burra e atende pelo nome de Cacaio.

Me coloco no lugar do torcedor bicolor que hoje, no mínimo, respeita o técnico azulino. Cacaio desperta no torcedor do Paysandu uma overdose de sentimentos. O técnico que hoje carrega a honra de herói remista foi o maior símbolo do primeiro título nacional do Paysandu, em 1991.

Quem o viu trotar, aos vinte e poucos anos de idade, treinando com a camisa alviazul, na Curuzu, não esquece. Cacaio era uma força da natureza, um puro sangue majestoso. Era mais forte e veloz do que qualquer mocinho de cowboy, a encarnação de Umbabaraúma, ponta de lança africano, cantado por Jorge Benjor.

Carregava a bola em velocidade, se desmarcava com facilidade, lia o jogo e previa onde a bola estaria. Arrisco dizer que ele antecipou em alguns anos o estilo de atacante moderno que Ronaldo Fenômeno patentearia na Espanha.

Em campos pesados, no calor amazônico, Cacaio conheceu o céu e o inferno. De herói bicolor, em 1991, virou anti-herói com a transferência polêmica para o arquirrival, em 92. Aprendeu a amar e ser amado pelas duas maiores torcidas do Estado. E pra vencer na dupla Re x Pa é preciso ter caráter. Um Napoleão Bonaparte talvez não aguentasse a pressão de jornalistas, torcida, diretoria e – o que é pior – a desvantagem financeira de fazer milagres com a grana curta, trabalhar com o que se tem e, ainda assim, multiplicar o moral da equipe.

Cacaio é hoje o maior vencedor da dupla Re x Pa

Por mais que a torcida bicolor não engula, tripudie, morda os lábios com a ira dos ressentidos, o acesso do Remo vai fazer bem ao futebol paraense. Quanto mais degraus separarem os dois rivais, maior poderá ser o tombo do derrotado. Quanto mais o outro crescer, menores serão as chances de o Paysandu ser contagiado pela soberba que cega e paralisa.

E a vida segue, agora bem mais fácil para o torcedor azulino. Segue aqui em baixo, do jeito que o Mudinho sonhou antes de partir. Segue lá em cima, com ele convencendo o time celestial, com seus gestos frenéticos, que o Remo tem um trunfo decisivo para ser o campeão da série D. Na negociação com a cúpula divina, o funcionário azulino, surdo-mudo de nascença e que faleceu mês passado, lembra a eles, com as mãos, a inicial do nome do trunfo. Faz o C de Cacaio.

O C de coração da série C.

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