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Por Mauro Tavernard

 

Desde setembro de 2015, quando iniciei minha “saga” de jogos pela Europa, lá se vão mais de 20 partidas, como torcedor ou portando credencial de jornalista, que tive a oportunidade de assistir/trabalhar. França (Nantes e PSG), Holanda (Ajax), Escócia (Glasgow Rangers), Inglaterra (Chelsea, Liverpool…) e Irlanda (Bohemians e Shamrock Rovers) foram os países visitados até aqui. Ontem foi mais um dia de futebol no currículo, quando à noite visitei o estádio Richmond Park para acompanhar St. Patricks 0 x 4 Dudalk, pela primeira divisão do Campeonato Irlandês.

 

Marcado para às 19h45, eu como de costume deixei tudo para cima da hora, e mesmo estando livre a partir das 16hrs, saí de casa só às 18:30. Levando notebook e câmera na mochila, iniciei o longo percurso ouvindo uma playlist variada no celular, num mix de Arctic Monkeys, The Strokes e Led Zeppelin. Optei por ir pela margem do bonito rio Liffey, admirando paisagens e lugares que eu ainda não conhecia em Dublin. Entre “Starway to Heaven”, “Last Night” e “Leave Before the lights came on” berrando no fone de ouvido, vi pubs e restaurantes interessantes que me fizeram até pegar o bloquinho de anotações para marcar tais lugares para ir quando pintar uma folga.

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O percurso era longo (mais de uma hora à pé), e como neste dia eu teria que ir para a sala de imprensa, tive que ir com um tênis desconfortável, mas nada que atrapalhasse o brilho de um passeio agradável e tranquilo. O frio, que me “persegue” desde que cheguei em agosto, segue o mesmo de sempre – em torno de 3 graus, com muito vento -, mas andando a sensação térmica fica menos intensa como de costume. Até me dei ao luxo de abri o casaco.

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Me dei conta de como me sinto seguro aqui, pois no Brasil não iria nem na esquina andando com pertences valiosos. Mas Dublin é muito mais segura que cidades europeias como Paris e Londres, dentre outras. É uma das maiores qualidades da ilha. A questão não é ser ou não assaltado, mas a sensação de segurança.

 

Voltando ao trajeto, depois de quase uma hora “pernando”, o mão de vaca que vos fala, que faz tudo para não pagar cerca de R$10 só de ida no busão chegou esbaforido no estádio. Depois de entrar e cumprimentar o assessor de imprensa, sentei no setor designado aos jornalistas e durante os 30 primeiros minutos apenas acompanhei o jogo, sem nem abrir o pc. Como já tinha visto em jogos anteriores, vi muita vontade de ambos os lados, marcação forte e até que bons jogadores. Diria que os dois clubes, os melhores elencos do país, estão no nível da terceira divisão da Inglaterra, e jogariam de igual para igual no Brasileirão. O Richmond Park é pequeno, mas muito bem cuidado e a torcida deles, dos Pats, é atuante. Até Match Programme (livrinho do jogo) eles têm!

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Depois de assistir jogos em Anfield Road, Parc des Princess e White Hart Lane, só para citar alguns, nada mais parece me deslumbrar. O ponto alto foi um gol de Sérgio Aguero que vi em Upton Park (West Ham, Londres), bem atrás do gol de Adan, em que o argentino veio saudar com a torcida do City, aonde eu tava, com centimetros de distância. Mesmo assim, assisto a jogos menores com o mesmo olhar curioso, aquela vontade de ser surpreendido a qualquer hora. O nível técnico diminui drasticamente, é claro, mas mantive a seriedade e prestei atenção no bom futebol mostrado pelo Dudalk, atual campeão irlândes.

 

Bem montada, a equipe, que possui a mesma base à vários anos, jogava tão bem para os padrões locais que podia até pleitear um lugar nas ligas dos vizinhos escoceses e ingleses, assim como o galês Swansea, se para isso necessitasse apenas do mostrado em campo para isso. Nada de espetacular, porém extremamente eficiente. Me lembrei do Tottenham, time pobre em valores individuais, mas que no jogo coletivo abocanha pontos importantes. O resultado em si até que foi injusto,pois os donos da casa pressionavam a todo o instante, e não jogaram tão mal para tomar de 4. Ao todo os Pats deram 12 chutes a gol, e os visitantes apenas 5.

Segundo gol do Dudalk que consegui filmar:

 

Mesmo com placar de 3 a 0, eles fechavam os espaços do adversário, desesperado para não decepcionar os cerca de 5 mil que lotavam o estádio, usando sempre os contra-ataques como arma. Horgan livre na pequena área venceu o goleiro Clarke para fechar os 4 a 0 do Dudalk. David McMillan, Brian Gartland e novamente Horgan foram os outros marcadores da noite. O Dudalk, que ganhou com folgas o torneio ano passado, segue como grande favorito novamente para faturar o “Irlandesão” esse ano. A temporada da Irlanda não segue os padrões europeus, com partidas entre março e novembro.

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Me despedindo daquele clima de estádio “família” que tanto gosto, vi várias crianças em campo, várias gerações de torcedores que manteram viva a mémoria daquele time, daquela comunidade, por vários e vários anos, numa amostra do que o futebol tem de melhor. Imaginei levando meu filho um dia num jogo, em como ia ser bom ver ele brincando com as outras crianças no intervalo e pulando comigo na hora do gol.

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Na coletiva de imprensa, tive a dura missão de entrevistar o técnico Liam Buckley, visivelmente esgotado após ver seu time levar uma surra tática e no placar do líder Dudalk. Falei minha opinião sobre o futebol da Irlanda, que os jogadores eram muito fortes e intensos dentro de campo, e ele concordou. “Somos sempre assim (combativos). Os clubes daqui jogam dessa forma”, disse. Sua esposa já o esperava para leva-lo para casa,mas ainda consegui fazer uma última pergunta.

Disse que fiquei surpreso com o bom nível técnico do campeonato, que eram bons times, e que Pat’s e Dudalk eram os melhores do campeonato. “A diferença entre nós e o Dudalk é o tempo. Eles estão com a base formada há mais tempo, e nós formamos o time recentemente”, finalizou Buckley.

 

Me despedi dos jornalistas, que mais uma vez me receberam muito bem, e fiz o mesmo caminho da ida na volta para casa. Desta vez sem (boa) música, pois minha bateria havia acabado, o que tornou o trajeto bem menos agradável. Meus pés foram castigados pelo solado irregular, mas cheguei em casa feliz após mais um dia de futebol.

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Ficha da Partida:

St Pat’s Ath – Clarke; O’Brien, D Dennehy, McEleney, Bermingham; Treacy (Verdon 76), Cawley; Timlin, Kelly (Byrne 67), B Dennehy; Fagan (Corcoran h-t).

Dundalk – Rogers; Gannon, Gartland, Boyle, Massey; Shields, O’Donnell; Mountney, Horgan (Meenan 83), Finn (Benson 76); Kilduff (McMillan 62).

Local: Richmond Park (Dublin-Irlanda)

Público: 5 mil pessoas

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É, meus amigos, só resta uma certeza, é preciso acabar com essa tristeza, é preciso inventar de novo o amor. Tomei emprestado os versos do “poetinha” Vinicius de Moraes para cantar meu amor infinito pelo Re x Pa. Em tempos de desilusões políticas e crise moral de um país em chamas, meu coração dilacerado grita por um partido: o Partido Nostalgia Futebol Clube. E o PNFC fundado por mim neste 04/03/2016 só tem como interesse o auto – deleite, proporcionado pelas lembranças do passado. Ás vésperas do Re x Pa que vai decidir o primeiro turno, quero reinventar o clássico mais disputado do mundo. Quero inventar de novo o meu amor por esse jogo.

Me lembro benzinho quando eu, com meus 8 anos de idade, tinha como diversão tentar adivinhar o time do coração dos ouvintes que ligavam para participar dos programas de rádio. Quando se é criança, o mundo se divide entre bons e maus, entre príncipes e vilões. Pois bem. A menina, que hoje vos escreve, tinha essa boba mania de rotular as pessoas de acordo com o time para o qual eles torcem. Se o ouvinte tinha voz de vovô malvado, ranzinza, ele torcia para o time X, mas o outro, ah, o outro tinha voz do vovô Gepeto, doce, carinhoso, engraçado, só podia ser do time XY!! E o pior, amigos, é que a menina quase sempre acertava.

O tempo passou e fui aprendendo que Remo e Paysandu possuem bandidos e mocinhos, dentro e fora de campo. A maior prova disso é que tive heróis dos 2 lados. Sim, dos 2 lados. Porque depois de virar profissional, o Re x Pa pra mim virou o maior palco das emoções humanas. Minha fantasia predileta, o jogo no qual o meu cavalo só fala inglês e eu sou sempre a noiva do cowboy. Quando meu time ganha ou perde, eu sempre arrumo um jeito de ser feliz. Seja vendo um jogador desacreditado cair nas graças de uma torcida ou confirmando uma previsão que eu fiz, o Re x Pa sempre me traz um coelho escondido na cartola azul. Pura magia.

Em 1992, um certo “Nego Bala” fez meu coração parar ao marcar o gol da vitória contra o Remo. Levei intermináveis segundos para a ficha cair, desde aquele chute, do meio de campo, até o gol defendido por Paulo Vítor. ( confira o gol no vídeo abaixo)

Sete anos depois, em 1999, vivi o outro lado, ao comemorar o gol de Aílton, que deu o título paraense daquele ano ao Remo. No início do Parazão, eu tinha acabado de perder minha filhinha, em um acidente de carro. Voltei a trabalhar juntando forças sabe Deus de onde, ou melhor, Dele mesmo. Aílton tinha acabado de ser contratado pelo Remo e teve que operar o joelho. Fui fazer a matéria com ele, ainda no hospital, e um misto de sentimentos me assombrou o vendo tão desanimado. Foi aí que um anjo, desses que vez em quando vêm passear por aqui, me soprou no ouvido: “ele vai fazer o gol do título no final do ano!” Afirmei com todas as letras que isso ia acontecer ao Aílton e ele, claro, fez pouco caso da repórter dublê de vidente. No último jogo do campeonato, minha profecia se fez realidade e Aílton guarda até hoje, emoldurada,  a minha crônica publicada no jornal do dia, antecipando o gol anunciado. (confira o gol e entrevista com ele, falando sobre esse jogo, no vídeo abaixo)

No Re x Pa desse domingo, não faço a menor ideia de que forma vou inventar de novo o amor pelo clássico e ser feliz. Pode ser vendo o Paysandu, um time campeão na administração, voltar a erguer um troféu de turno, o que não acontece desde aquele 3 x 3, em 2014, com gol do Zé Antônio e a invasão do “bodinho” no final. Ou pode ser vendo o Remo confirmar uma certeza minha, a de que existe um Deus misterioso que paira no Mangueirão e faz os jogadores azulinos incorporarem deuses da raça quando avistam a camisa listrada pela frente. O herói pode ser Augusto Recife, o estreante Potita, Eduardo Ramos, Marcelo Costa, Ciro, Cearense… Pode ser ainda um reserva, pra manter viva uma já tradição do clássico. Não importa. A certeza e que, assim como em todos os outros Re x Pa, eu vou ser a diretora do meu  próprio filme e ter mais uma deliciosa história pra contar. Do meu jeito, com a minha cara.

No mundo de hoje, achatado pela chatice da polarização e intolerância, não sou Lula, muito menos Bolsonaro. Torço de verdade é por seres humanos que vão de heróis a vilões e vilões a heróis em um lance. Sou Re x Pa. Sou amor.

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  • Por Mauro Tavernard

Robin Hood, aquele que roubava dos ricos e dava para os pobres, vivia, reza a lenda, em Nottingham (ING) no tempo das cruzadas, e na floresta de Sherwood fazia suas estripulias contra os poderosos, e ate hoje é celebrado pelos ingleses como um herói. Quase todo o turismo e atrações dessa cidade remetem a ele, mas não foi isso que me levou a pegar um ônibus de mais de três horas partindo de Manchester, e sim o Nottigham Forest FC, um dos clubes mais tradicionais da Inglaterra. Com 150 anos de existência, a equipe tem muitas histórias para contar, muitos títulos e, assim como os bicolores, também disputam atualmente a segunda divisão. Na década de 70 e 80, a equipe tornou-se mundialmente conhecida por, sob o domínio do treinador Brian Clough, conquistar, dentre outros títulos, duas ligas dos campeões (79 e 80), um mundial (80), uma supercopa europeia (79) e um campeonato inglês (78).  article-2225258-15C2B9F4000005DC-299_634x421

Sport, Football, England, 1980, Nottingham Forest manager Brian Clough with the European Cup trophy (Photo by Bob Thomas/Getty Images)

No lado do Paysandu também existem grandes conquistas, principalmente no inicio dos anos 2000, como uma Copa dos Campeões, duas Serie B, primeiro lugar na chave da Libertadores e, claro, a vitória sobre o Boca em La Bombonera. Isso sem falar nas “peias” que dava em cima de várias grandes equipes no período de 2002 a 2005, quando disputou a Serie A pela ultima vez. Evidente que a comparação não pode ser levada ao pé da letra, pois são realidades completamente diferentes as de um time brasileiro e equipe inglesa, mas as semelhanças devem ser ressaltadas. Como ambos os times possuírem sedes longe dos grandes centros, e lutarem “contra tudo e contra todos” nos períodos de grandes conquistas, com a grande mídia quase sempre favorecendo outros clubes.

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O memorável time composto por Robgol, Ronaldo, Vandick e muitos outros que passaram pela Curuzú há pouco mais de uma década fez historia, com a fiel bicolor lotando quase todos os jogos numa festa inesquecível para seus torcedores. Lembro quando fui assistir ao jogo contra o São Paulo pelo Brasileirão 2003 e ate hoje me lembro da magnifica atuação do time, que fez 5 a 2 com uma autoridade impressionante. Robgol deixou Rogerio Ceni no chão por 3 oportunidades naquela noite, só para citar um dos muitos jogos marcantes.

E isso tudo sendo da região Norte, ha muitos km de distancia de RJ e SP, fazendo o restante das equipes da Serie A serem obrigadas a realizarem longos deslocamentos só para enfrentar os paraenses em Belém. Claro que esse sucesso todo de um time nortista não agradava aos “poderosos”, e cansei de ver nesse período o time sofrer com erros absurdos da arbitragem em vários jogos, que dão margem a diversas especulações, e mesmo assim mantendo-se entre os melhores. “Vi em vários jogos da Serie A que ‘metiam a mão’ em nos (PSC), mas aquele elenco era fantástico, praticamente imbatível no Mangueirão”, relembra o torcedor Caio Nogueira.

Com o Forest a situação é parecida. Ouvi vários relatos de torcedores afirmando que “eles (grandes clubes, dirigentes da FA) sempre foram contra nós”, como disse (o ainda) indignado torcedor Michael Shrol, fan do Forest por mais de quatro décadas. “Fomos para o céu (Champions League), depois fomos para o inferno (divisões menores) e agora estamos no purgatório (período atual)”, exagera Shrol. Dentro de campo, no bonito City Ground praticamente lotado (30.000), vi um time muito ruim jogando, no assento mais próximo possível do gramado. A torcida aflita viu o modesto Bristol City, que luta contra o rebaixamento, fazer dois a um, e praticamente sepultar as chances do time da casa na classificação para os playoffs da Premier League.

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Mas a equipe vem com um plano de reestruturação para a temporada seguinte, quando planejam de fato voltar a primeira divisão. Em 2013, o clube foi comprado por Fawaz Al-Hasawi, que começou a investir pesado no clube. “Acreditamos (torcedores) num futuro melhor, com investimentos, para a volta das grandes conquistas em breve”, acredita Deny Long, torcedor que não acompanhou o período glorioso da Champions League. “Não tinha nem nascido naquela época, mas espero ver isso o quanto antes novamente!”, acredita. Logo que chegou a Nottingham, Fawaz prometeu “um Forest grande para as novas gerações”, e mesmo com os resultados não vindo, conta com o apoio da maioria da torcida.

Confiantes no futuro também estão os bicolores, principalmente com a administração “pé no chão” do presidente Alberto Maia, que investe pesado no marketing e na captação de recursos para o clube. Ano passado a equipe bateu na trave na Série B, não se classificando para a primeirona com uma diferença mínima de pontos para o quarto colocado.  “Estamos dando continuidade a um trabalho muito difícil, que é de forma responsável conduzir o Paysandu Sport Club, cumprindo com as obrigações que são inerentes a uma gestão responsável, e que ressalto, são poucos clubes no futebol brasileiro que estão cumprindo com essas obrigações” disse Maia ao site oficial do clube.

Voltando ao City Ground, a impaciente torcida, que frequentemente gritava “the team plays like a shit (o time está uma m*)”, saiu indiferente do estádio, e até aplaudiu os jogadores, estes tão criticados durante os 90 minutos. O Forest está literalmente no meio da tabela, com 13 pontos do sexto colocado e hoje classificado para os playoffs da Championship Sheffield Wednesday, e 13 pontos acima do primeiro time da zona de rebaixamento, Roterham. Sempre que perguntava qual o melhor jogador do elenco para os torcedores, a reposta demorava a sair, por que de fato a atual equipe é bem limitada, e conta com o goleiro De Vries e do zagueiro Matt Mills como maiores expoentes.

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Enquanto a temporada inglesa chega perto do fim, o calendário dos bicolores só está começando, com Parazão, Copa Verde, Copa do Brasil e Série B. Dado Cavalcante e seus comandados terão muito trabalho para dar conta de tantos jogos, com o objetivo principal de ficar entre os quatro da segundona ainda este ano.

Saindo do estádio do Nottingham Forest, tive a entrada gentilmente cedida na área de imprensa do clube, e consegui bater fotos com os jogadores Hills e Cohen com a camisa do Paysandu, e ainda achei o atacante Charles, do Bristol City, que tentou dizer em bom “gringuês”, “Paysandu Campeão dos Campeões (no final do vídeo completo abaixo, após a matéria)”. Bati também fotos com um grupo de torcedores mirins que ficaram encantados com a beleza da vestimenta alvi-celeste.

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No caminho do hotel, admirei o City Ground de longe, na ponte que corta o rio Trent, e me perguntei como este clube, que fica literalmente “no meio do nada” (cidade tem apenas 160 mil habitantes), longe dos grandes polos industriais e econômicos do país, conseguiu tantos feitos importantes, e até hoje consegue levar mais de 25 mil torcedores por partida, faça chuva ou faça chuva (São Pedro não perdoa a Inglaterra nesse sentido).

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Me lembrei do Paysandu, em como fui privilegiado de acompanhar dentro do estádio vários jogos no Mangueirão e Curuzú, no talvez melhor período da história da agremiação. O Mangueirão tremendo, parecendo que ia desabar, ainda permanece vivo na minha memória, com a Fiel frequentemente apoiando time mesmo em situações não tão gloriosas. Quando fui na Argentina, me espantei com o numero de “hermanos” que conheciam os bicolores, e o mesmo se repete com os brasileiros aqui na europa.

Dificil mesmo não reconhecer um time com tantos bons jogadores em sua história, capaz de até hoje ser lembrado por Milton Neves quase todos os domingos no Terceiro Tempo da Band, e os jogos do clube ser parada obrigatória para quase todo turista, que gosta de futebol, ao visitar a capital paraense. Assim como o Nottigham Forest é um dos ícones da cultura local ao lado de Robin Hood, o Paysandu também pode ser considerado um dos patrimônios da cidade de Belém, ao lado das comidas típicas e da rica cultura Papa-xibé. PSC e o rival local possuem as torcidas mais apaixonadas e fieis do Brasil, e posso dizer por experiência própria, por ter acompanhado várias partidas pelo Brasil e exterior, que até hoje vi poucas mais fanáticas dentro de um estádio.

Mas é claro que equipes como Forest e Paysandu, que foram para o ponto máximo de suas forças, os períodos de baixa ou “purgatório”, como disse o torcedor inglês, podem ser muito mais dolorosos do que para aficionados de equipes que nunca sentiram esse gostinho antes. E no imaginário de bretões e paraenses, a esperança da volta para o topo nunca vai cessar, até ser concretizada de fato. E se depender da “fome” da atual diretoria bicolor, essa espera não será de mais de 30 anos, como em Notingham.

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Eis uma unanimidade que não tem nada de burra. Celsinho e Ciro, ou Ciro e Celsinho, sem ordem de importância,fundamentais para suas equipes, na mesma proporção,  vêm sendo os destaques desse Parazão.  O meia do Paysandu e o atacante do Remo têm em comum uma carreira que começou promissora, viveu altos e baixos e tem agora no Parazão a chance do recomeço. Embalados por duas torcidas que fabricam xodós com a rapidez de um drible desconcertante, Celsinho e Ciro, ou Ciro e Celsinho vêm mostrando a cada jogo que nossos ídolos não são os mesmos, mas como diz a música de Belchior, “as aparências não enganam, não”

O paulista Celsinho, 27 anos, chegou a Belém como o sósia de Ronaldinho Gaúcho. A comparação vem desde os tempos de Portuguesa, onde o meia despontou como grande revelação entre 2004 e 2005 . A habilidade também lembra a do sósia gaúcho. Foi com ela, motorizada pelas arrancadas e boa visão de jogo que Celsinho foi vendido ao Lokomitiv, da Rússia, por R$ 7,5 milhões. Sem conseguir engrenar no clube russo, o meia passou por equipes de Portugal, retornou à Lusa e disputou competições na Romênia. Em 2012, Celsinho acertou com o Londrina e, desde então, além de atuar pelo Tubarão, foi emprestado para o Fortaleza e Figueirense, mas em nenhum dos clubes conseguiu embalar a carreira. Mas logo em sua estréia no Paysandu, Celsinho mostrou que poderia ser o tal camisa 10 que a torcida bicolor tanto esperava desde a saída do controvertido Eduardo Ramos. Em cinco jogos, marcou três gols,mas o que chama mesmo atenção no meia é a capacidade de criação em suas cobranças de faltas e lançamentos precisos.

Do outro lado, o Leão tem um atacante que vem merecendo o status de matador. Pernambucano, de 26 anos, Ciro é o artilheiro do Parazão, com 5 gols em quatro jogos. O cara que selou a classificação do Remo em primeiro lugar, contra o Cametá, deve ter sido abençoado pelos deuses da bola, porque recusou propostas do futebol internacional e times da série B do Brasileiro para vir cair nas graças da exigente torcida azulina. Ciro começou nas categorias de base do Salgueiro. Aos 16 anos, foi  para o Sport, onde ficou de 2008 a 2011 e marcou 51 gols. Nesse período, chegou a ser convocado  para a  seleção brasileira sub 20. O jogador ainda passou por Fluminense, Bahia, Atlético-PR, Figueirense e no ano passado jogou pelo Luverdense e marcou oito gols. Ciro chuta com os dois pés e ainda cabeceia, com uma eficiência inquestionável para balançar as redes.

Não me recordo de um Parazão que em apenas 4 jogos tenha produzido destaques tão contundentes tanto em Remo, quanto no Paysandu. Às vésperas das semifinais, Ciro e Celsinho, ou Celsinho e Ciro têm o desafio  de mostrar que entre destaques e ídolos há uma grande diferença. Esses últimos brilham nos jogos decisivos e eles começam no sábado. Mas para virarem , de fato, os xodós da torcida, Ciro e Celsinho vão ter que fazer a diferença no Re x Pa. Se o clássico vai acontecer pela final do primeiro turno, dia 6 de março ou pelo segundo turno, dia 3 de abril, não importa. Se um dos dois  arregar na hora H, a torcida não vai perdoar.Com a mesma velocidade que ela embala jogadores, ela os condena ao purgatório da bola.

 

Por Mauro Tavernard

 

A imensa torcida azulina, uma das maiores do Norte-Nordeste do país, espera ansiosa por novos horizontes em 2016. Com o bom ano de 2015 e a vaga assegurada na Série C, não faltam motivos para acreditar. Comparado ao calvário que o clube passou em temporadas anteriores, em que chegou a ficar sem disputar Campeonatos Brasileiros em determinados anos, pode-se dizer que os remistas iniciaram um processo de reconquista do prestígio de outrora. Na Grã Bretanha, outro time azul e vencedor também passou por percalços recentes. Fui para a gélida e nevada Glasgow, na Escócia, conhecer a história do também centenário Rangers Football Club, um dos maiores clubes de futebol da Grã-Bretanha. Separados por quase dez mil km, Baenão e Ibrox Park têm muita história para contar: títulos, craques do passado, e um futuro (ainda) incerto. Cidade, cultura e campeonatos disputados podem até ser diferentes, mas os torcedores de ambas as equipes também possuem muitas semelhanças, que vão além do escudo parecido com cinco estrelas.

Remo e Rangers passaram, nos últimos anos, verdadeiros perrengues financeiros e o clube do país da Rainha chegou a declarar falência em 2012, caindo para a quarta divisão e até mudou de nome, tirando o “Glasgow” da grafia oficial. Atualmente é conhecido apenas como Rangers Football Club. Sua predominância no futebol local diminuiu nos últimos anos e acompanhou por meio de uma lupa seu principal rival, Celtic, disputar torneios importantes, tendo maior visibilidade internacional, retardando anos de trabalho duro que os Gears, ainda hoje, o clube com mais campeonatos locais conquistados no mundo (54, número confirmado pelo Guiness Book), realizaram com mais de 143 anos de história. O Leão Azul de Antônio Baena, por puro capricho – ou falta de rigor da jurisdição brasileira em punir os clubes – não entrou em situação parecida, mas fora ameaçado várias vezes de perder seus principais patrimônios, também disputou a quarta divisão, viu de longe seu maior rival, Paysandu, também ter realizado feitos importantes e, de quebra, perdeu a hegemonia local de campeonatos paraenses para os bicolores.

Mas não são apenas aspectos negativos que unem esses clubes ou o fato de dois dos principais ídolos de cada um, Alcino e Paul Gascoigne, terem problemas com bebida. Essas agremiações vêm galgando pequenos passos rumo ao retorno da fama e da autoestima perdida, causada principalmente por péssimas administrações e dirigentes irresponsáveis. Nesta temporada, o (Glasgow) Rangers disputa a Scottish Championship, equivalente à segunda divisão escocesa e, domina com folga o torneio, com cinco pontos de vantagem para o segundo colocado, além de dois acessos seguidos. Os azulinos, por sua vez, tiveram um ótimo ano em 2015 – problemas financeiros e administrativos à parte – e dentro de campo conquistaram o título paraense pela segunda vez consecutiva, chegaram à final da Copa Verde e finalmente deixarão de disputar a última divisão do futebol nacional este ano, com o acesso para a Série C em novembro passado.

Ibrox Park, o Baenão Escocês

Sábado passado, o time europeu ganhou em casa do Livingston, por 4 x 1, em mais uma vitória tranquila na segundona. Estive no Ibrox Park e arredores neste dia para falar com torcedores, dirigentes e jogadores sobre o clube, numa tarde com fortes rajadas de neve na cidade, fato inesperado até para os próprios moradores locais. Com início marcado para as 15h, a reportagem foi para o estádio por meio de transporte público (ônibus), saindo do centro da cidade, com duas horas de antecedência. O percurso demorou pouco mais de 20 minutos, e da janela do coletivo foi possível observar os primeiros sinais de neve, ainda de maneira tímida. Até então nenhum indício da nevasca que seguiria, o que quase culminou com o cancelamento da partida e com várias ruas interditadas.

Com a camisa do Clube do Remo em mãos, fomos apresentar o time paraense para os torcedores locais, que concordaram com as semelhanças dos escudos. “Realmente são muito parecidos. Ambos têm CR na estampa e cinco estrelas em cima. Camisas bonitas!”, disse Danny Macain, ambulante, que há mais de 20 anos vende cachecóis, camisas e adereços do Rangers ao lado do Ibrox Park. Para Danny, os “piores anos da sua vida”, como ele afirmou com olhar nostálgico, foram o período em que os Gears declararam falência (2012), e chegaram a jogar com times semiprofissionais. “Foi horrível, não só por eu ser torcedor, mas as vendas caíram também. O engraçado é que havíamos ganhado a primeira divisão no ano anterior. Foi um baque muito grande”, lamenta o escocês, que ainda não havia vendido um pence (centavo britânico) naquela tarde.

Inaugurado em 1899, o imponente Ibrox Park pode ser até três vezes maior, em capacidade total, se comparado ao Baenão, mas a atmosfera dos arredores lembra muito a João Paulo II, Almirante Barroso ou Antônio Baena, que cruzam o estádio remista. Com um frio de -4c e nevando forte, à uma hora da partida a torcida começava a se aglomerar próximo da Arena, e o semblante confiante, até mesmo aliviado, dos “suporters” (torcedores em inglês) se assemelha com o dos azulinos, que semana que vem voltarão a acompanhar o time no Campeonato Paraense. “Estamos muito felizes, pois agora estamos disputando a segunda divisão, com praticamente vaga assegurada na primeirona ano que vem. Somos o melhor time da escócia, merecemos isso”, acredita o advogado Ryan McLingus, que estava com um grupo de amigos e parentes em frente à fachada do estádio. Todos estavam curiosos com a camisa remista, que eles chamaram de “diferente”, pela tonalidade da cor azul. “Muito bonita a camisa, o escudo é parecido mesmo. Pelo que você me falou, a história recente também é. Os da ‘Amazon’ sabem pelo que passamos também”, afirmou o simpático Roy, patriarca da família McLingus. Incentivado pela reportagem, pegou a vestimenta paraense e falou, em bom “gringuês”,”Remo é o Rei da Amazônia”. O vídeo foi gravado e viralizou nas redes sociais (https://www.youtube.com/watch?v=qKIxP0HcgyQ

).

Com as recentes conquistas e acessos, os torcedores do Clube do Remo podem também sonhar com dias melhores, assim como os aficionados de Glasgow. Pela primeira vez desde que foram rebaixados da Série C em 2008, os remistas vão ter um calendário garantido para os dois semestres, sem precisar ter que conquistar os primeiros lugares do Parazão como nos últimos anos. “Não tenho nem palavras para dizer o quanto este ano será importante para nós. Sempre começávamos a temporada com aflição, sem nada garantido para o segundo semestre, mas agora a confiança voltou, e vamos voltar a disputar grandes jogos”, afirmou por e-mail o estudante Caio Mappes, que assim como os integrantes da família McLingus, também tem motivos para acreditar que 2016 será um grande ano para o clube paraense. “Todos (remistas) estamos ansiosos para o jogo contra o Águia. Sabemos que temos muitos problemas ainda, mas acredito que passamos pelo pior”, disse. Visando um início promissor, o treinador Leston Jr. afirma que o clube aproveitou bem o período de pré-temporada, e que “o tempo não é nosso aliado, mas vamos ter o time completo até o dia 31”. Já Fred Gomes, executivo de futebol do clube, já traçou as metas para 2016. “Nosso intuito é fazer um grupo forte e buscar os títulos, nosso principal objetivo nesse começo de temporada”.

Pouco antes do início da partida, a reportagem conversou com o treinador Mark Warburton, sobre as semelhanças das histórias recentes dos clubes. “O Rangers também paga o preço por administrações ruins do passado, e já saldamos o valor, com juros (risos)”, diz, sobre a punição imposta pela federação escocesa, com o rebaixamento para a quarta divisão, obrigando o clube a mudar de nome e ser gerido por um grupo de acionistas, para fugir das dívidas, que ultrapassavam o montante de 20 milhões de libras. “Foi um período difícil, mas o lado bom disso tudo foi que, apesar de perdermos parte do prestígio internacional nesse período, fortalecemos ainda mais nossa torcida. Assim como aconteceu com o Remo, a torcida abraçou o time, mesmo nos piores momentos”, relembra o comandante, afirmando ainda que hoje o clube praticamente zerou as dívidas, e possui um projeto ambicioso de voltar a ser um dos melhores clubes da europa em poucos anos. “A partir da temporada 2016-2017, voltaremos de fato aos grandes jogos e torneios, e com maior poderio financeiro”, constata o membro da direção do clube, John Gilligan.

Já de dentro das arquibancadas do Ibrox Park, fomos ao lado oposto da cabine de imprensa do clube, na “Sandy Jardine Stand”, e falamos com John Dover, economista, que aguardava o início do jogo com seus dois filhos pequenos. “Não é fácil você ser campeão num ano e no outro ser rebaixado para a última divisão. O clube faliu, perdemos tudo, e foi muito difícil no começo”, afirmou. Quanto ao maior desejo para o futuro, John não titubeou. “Enfrentar novamente o Celtic na primeira divisão é o maior desejo de todos nós. Queremos voltar a jogar no mesmo nível deles de novo, e sermos superiores na colocação final, como sempre fomos”, suspira o torcedor. Sem enfrentar o maior rival Paysandu há quase dez anos em competições nacionais (a última foi na Série B de 2006), os azulinos também podem vislumbrar um confronto já no próximo ano, caso o PSC permaneça na Série B e o Remo consiga o acesso.

Com um público de quase 50 mil pessoas (média de quase todos os jogos, mesmo nas divisões inferiores), a casa dos Gears, apesar do frio, estava calorosa, com a torcida fazendo a festa nas arquibancadas. Logo aos 8 minutos de jogo, o zagueiro Danny Wilson marcou de cabeça e abriu o placar, contra o modesto Livingston. O artilheiro do time, Martyn Waghnom, ainda marcaria duas vezes, e Kenny Miler anotaria outro, encobrindo o goleiro. No intervalo já constava 4 a 0 para o Rangers, mas nem a enorme superioridade entre as equipes, toante em qualquer jogo dos Gears na Championship, tirava o animo da torcida, que vibrava muito a cada gol, com uma animada música nos alto falantes após cada bola na rede (nanana..), como se cada tento fosse menos uma pedra no caminho do time rumo às grandes conquistas novamente. Buchanan ainda marcaria aos 11 minutos do segundo tempo para os visitantes, mas isso em nada interferiu na animação da galera.

No final do jogo, na coletiva de imprensa, ainda tivemos a oportunidade de falar com o zagueiro Danny Wilson, que desejou boa sorte ao Clube do Remo. “Este ano de 2016 vai ser um grande ano para o Rangers, e espero que para o Remo também. Time com torcida forte merece estar sempre no topo. Então, boa sorte para nós!”, disse o jogador, que também gravou um vídeo dizendo que o “Remo, o rei da Amazônia”. https://www.youtube.com/watch?v=PNx_2fi2iFo

Ao apagar das luzes, o Ibrox Park, coberto de neve, é o reflexo de um clube que assumiu seus erros do passado, e acredita num projeto de médio-longo prazo para o futuro. Mas ficou claro que os grandes incentivadores dessa nova mudança não foram dirigentes ou acionistas, e sim os próprios torcedores do Rangers. Ingressos esgotados mesmo em jogos sem muita relevância, doações e a continuação da paixão de pai para filho, perpetuando o sentimento de amor pelo clube através de gerações, não foi interrompida, pelo contrário. O “sofrimento” só fez aumentar o fanatismo dos aficionados.

Para os padrões de público do futebol brasileiro, a presença da torcida azulina dentre de casa é realmente um fenômeno, chegando a colocar mais de 30 mil pessoas em jogos da Série D. E a maior ligação entre os dois clubes é exatamente essa, o poder de seus maiores apoiadores, que não medem esforços para ajudar seu clube do coração – ao invés de perder torcedores, como acontece com alguns clubes que passam por períodos difíceis após bons momentos. Pode ser nas temperaturas negativas em Glasgow, ou no calor abafado de Belém. Não importa o resultado, ou as trapalhadas dos dirigentes, eles sempre estarão lá, faça chuva ou faça neve. Não adianta o melhor filósofo ou psicólogo tentar descobrir o real motivo de todo esse amor, pois só quem sabe e sente isso são os próprios torcedores. São eles que sofrem a cada bola fora, os campeonatos perdidos, a zoação dos rivais, pagam preços cada vez mais altos dos ingressos. Não importa se forem 30 pounds ou 30 reais, esse dinheiro sempre vai fazer falta para a maioria. E se o velho clichê “depois da tempestade, vem a bonança” estiver realmente certo, então o futuro dessas equipes está garantido, por que não há nada abaixo da última divisão. O Rangers já está com seu projeto em curso, com vaga praticamente assegurada na primeira divisão do ano que vem, com o objetivo de voltar a disputar a Champions League o quanto antes.

No lado de Antônio Baena, o acesso ano passado e o contínuo apoio da torcida demostram que os próximos passos serão mais longos, a começar pelo calendário completo em 2016, que logo de cara aumentará o número de sócio-torcedores, chave para o sucesso de qualquer grande clube. A confiança também será mais elevada, refletindo diretamente nos jogadores, que poderão disputar o Parazão, por exemplo, sem a obrigação de ser campeão para disputar o campeonato brasileiro, e na Série C terem maior tempo de preparação na primeira fase. Especulações à parte, o fato é que os azulinos tem o seu melhor início de ano em muito tempo, e um bom início no Parazão será o primeiro passo rumo à reconstrução da identidade remista, dando razão à alcunha “Filho da Glória e do Triunfo”, parcialmente deteriorada nas últimas temporadas.

 

Infográficos:

– Ficha do clube

#Nome: Rangers Football Club

Data de fundação: 1872

Cidade: Glasgow (Escócia)

Apelidos: Gears, The Teddy Bears.

Estádio: Ibrox Park (capacidade máxima de 50 mil espectadores) foto

Competições em 2015-2016: disputa atualmente a Scottish Championship (segunda divisão) e Copa da Escócia.

Jogo: Rangers FC 4 x 1 Livingston (16 de janeiro de 2016)

Temperatura na hora da partida: -4c

Colocação na segunda divisão tabela: 1°

 

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Nome: Clube do Remo

Data de fundação: 1905

Cidade: Belém (Pará-Brasil)

Apelidos: Filho da Glória e do Triunfo, Leão Azul e Cçube de Periçá .

Estádio: Baenão (capacidade aproximada de15 mil pessoas)

Competições em 2016: Disputará o Campeonato Paraense, a Copa do Brasil, Copa Verde e Série C.

 

 

– 5 principais semelhanças entre os times:

Escudo: O emblema oficial do clube (foto) possui um urso vermelho ao centro, mas o escudo usado nas camisas de jogo dos jogadores possui, assim como o dos azulinos, as letras CR (contidas em Ranger Football Club) e cinco estrelas. O Clube do Remo possui elas e ostenta até hoje o pentacampeonato paraense conquistado na década de 90, ao passo no caso dos Gears, cada estrela representa dez campeonatos locais vencidos pelo clube.

Passado glorioso: Com 54 títulos nacionais da primeira divisão (maior detentor de torneios locais do mundo, reconhecido pelo Guiness Book), 33 Copas da Escócia, 27 Copas da liga e uma Liga Europa (1972), o Rangers FC domina amplamente o cenário local de Glasgow. Atual bicampeão paraense, o Clube do Remo possui 44 títulos paraenses, 3 Copas Norte, uma Copa Norte-Nordeste e grandes participações em torneios nacionais, como a sétima colocação no Campeonato Brasileiro de 93 e a semifinal da Copa do Brasil de 91 – ambas melhores participações de equipes da região Norte até hoje. O esquadrão remista dos anos 70, com Dico, Dutra, Darinta, Bira e Alcino também é bastante lembrado pelos torcedores.

Queda e reconstrução: Depois de bater na trave na Série B, com dois acessos por pouco não concretizados (2000 e 2003), e boas participações na Copa do Brasil, o início dos anos 2000 dava pintas de que o clube de Antônio Baena retornaria às grandes conquistas. Mas as péssimas administrações continuaram, levando o clube ao colapso financeiro, sucessivas ameaças de perda de patrimônios penhorados e, a partir do rebaixamento da segundona de 2007, o time entrou em queda livre, chegando a ficar duas temporadas (2009 e 2011) sem participar de qualquer competição no segundo semestre, por estar fora da Série D. A maré de azar começou a mudar apenas sete anos depois, em 2014, com a conquista do Parazão, e no ano seguinte, com o bicampeonato, vice da Copa Verde e acesso para a Série C, devolvendo a confiança perdida para a torcida remista. Em situação pior estavam os escoceses, que por dívidas não pagas faliram, trocaram de nome e foram obrigados a disputar a quarta divisão nacional, em 2012, no pior momento da agremiação em quase 150 anos de história. A volta por cima veio com as contas em dia, apoio da torcida, e dois acessos seguidos. Ganhando vários jogos por goleada nesta temporada, o retorno à elite está praticamente assegurado este ano.

Idolos temperamentais (Paul Gascoine x Alcino):

#Paul Gascoine: Com quase 60 jogos como capitão da Seleção Inglesa, e participações importantes em times como Everton, Newcastle e Midlesbrough, o ex-meia Paul Gascoine foi uma lenda dentro de campo, mas fora dele sua vida pessoal seguiu rumos opostos. A sua passagem pelo Rangers, entre 95 e 98, foi marcada por belos gols e títulos, mas também por trapalhadas extra-campo. Seus problemas com drogas e alcool faziam o jogador faltar a treinos e até partidas, e seu estilo temperamental atrapalhava a equipe em muitos compromissos. Quase morreu de overdose em 2008, já aposentado, e recentemente pediu ajuda financeira para a federação inglesa, alegando ser sem-teto, e atualmente, aos 48 anos, entra e sai de clínicas de reabilitação com frequência.

# Alcino: Nascido no Rio de Janeiro, o carioca Alcino Neves, também conhecido como “Negão Motora”, é até hoje celebrado nas arquibancadas do Baenão e Mangueirão com sua foto em bandeiras da torcida, sendo considerado talvez o maior ídolo da história do Clube do Remo. Fez parte do grande esquadrão azulino da década de 70, tendo ao seu lado o centroavante Bira, conquistando o tricampeonato paraense de 1973, 1974 e 1975, sendo o goleador máximo dessas edições. Com 158 gols marcados, é o segundo maior artilheiro da história do clube. Amado e celebrado dentro das quatro linhas, também ficou conhecido por ter problemas com bebida. Ex-jogadores da época afirmaram em entrevistas que cansaram de ver Alcino chegar ao treino com cheiro de bebida, após farras constantes na noite paraense da época. Uma das histórias mais folclóricas do jogador remete a um Re-Pa, em que nas vésperas do confronto o atleta não havia comparecido para a apresentação do elenco, pois havia curtido até altas horas na noite anterior. Foi necessário um dirigente ir até sua casa buscá-lo, ajudá-lo a tomar banho e levar ele ao jogo, que já estava em andamento. O Negão Motora entrou em campo e ainda marcou o gol da vitória remista. Alcino morreu com dificuldades financeiras em 2006, vítima de câncer.

 

 

Torcida atuante: com maior poder aquisitivo, historicamente equipes de ponta da Escócia e Inglaterra, ambas do Reino Unido, possuem médias de público superiores ao resto do mundo, e a torcida do Rangers, mesmo nas divisões inferiores, apoiou o clube com médias superiores a 40 mil expectadores nas últimas temporadas, sendo considerada uma das torcidas mais fortes da europa. Os azulinos possuem números expressivos no cenário nacional, lotando Baenão e Mangueirão, principalmente em grande jogos. Em 2005, o Fenômeno Azul, como ficou conhecida nacionalmente a torcida remista, bateu recordes de público na Série C, com média de mais de 30 mil pagantes por jogo, a maior entre todas as divisões daquele ano – considerando que o clube disputava a Terceirona pela primeira vez na sua história, e ainda por cima no ano de seu centenário. Ano passado a massa não fez feio, com média de 15 mil na Série D.

 

 

paysandu

 

 Foto: Fernando Torres ( Assessoria de Imprensa do Paysandu)

 

 

Na véspera de aniversário do Paysandu Sport Club, o vovô de 102 anos pegou 12 mil netos, bisnetos e tataranetos no colo em plena Curuzu. De vez em quando, ele afagava a cabeça de cada um dos torcedores, que matava a saudade de 7 meses sem jogos no velho  “vovô da cidade”. Arrumado pra festa de aniversário do velhinho, o estádio ganhou pinta high tech, com placas de publicidade em LED, tudo na bossa. Durante a partida, a torcida ganhou afagos que há muito tempo não sentia. Viu uma dupla de criação inspirada, formada por Celsinho e Raphael Luz. Qualidade no passe, assistências, gol. É, parece que o vovô  curou sua impotência no meio de campo do ano passado,  tomou uma azulzinha (e branca) e partiu pra cima. E o vovô anda tão pra frente, que nem seus apagões caducas na zaga de ontem tiraram o bom humor de seus convidados em sua festa de aniversário.

A vitória de 3 x 0 em cima do Paragominas esteve longe de ser brilhante, mas fez a torcida bicolor sair da Curuzu com orgulho renovado, tanto quanto o seu  centenário patriarca. O vovô ganhou outra cara em campo, não tem mais Pikachu e João Lucas correndo  pelas alas, mas colocou os pezinhos de seu escudo alado no coração de todo time que se preza: o meio-campo. E hoje, dia seguinte ao jogo, o vovô sai do berço todo prosa.  As peripécias vão além de uma boa estréia dentro do gramado. Danadinho esse vovô. Aprendeu que dinheiro não se guarda mais debaixo do colchão, mas se investe em uma política racional de contratações pé no chão. E mais do que isso, o velhinho de 102 anos aprendeu a se olhar no espelho com o respeito que merece  e enxergar a força de sua imagem. Foi ousado, criou marca própria de uniforme, colocou as garras de Lobo pra fora e em menos de 20 dias de vendas dessas novas camisas, o valor arrecadado já superou o recebido pelas vendas na última temporada.

O vovô vanguarda se modernizou, mas precisa também trazer  a maturidade e sabedoria dos mais velhos. Saber que os resultados em campo nem sempre correspondem a essa vitalidade. Por isso, esse aniversariante de 102 anos precisa também às vezes calçar as sandálias da humildade daquele outro velhinho, o franciscano. Esse é o caminho  que a torcida espera, para que o vovô  não perca o embalo no final do campeonato. Aí sim, o velhinho de tantas histórias gloriosas pra contar, vai subir em uma cadeira na calçada e tufar o peito pra dizer: sou campeão!