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A Inglaterra, assim como a Argentina e Alemanha, são países conhecidos por terem um futebol local forte e torcedores apaixonados. Já estive em Buenos Aires e vi alguns jogos na Europa com torcida visitante da Alemanha, e somados com várias partidas que vi na Inglaterra, de times das cinco principais divisões, tive a real dimensão do que os clubes representam para seus fans. Diferente do Brasil, em que o se o time perder três jogos o público no estádio cai drasticamente, nesses locais, não importa a divisão ou posição do time na tabela, o futebol possui um significado mais amplo.

Já cansei de ver time perder de goleada em casa e ser aplaudido, time rebaixado para a última divisão lotar estádio e médias de público maiores que de times da série A do Brasileirão de equipes com títulos no currículo. No meu segundo jogo cobrindo o Portsmouth FC optei por acompanhar a torcida do Pompey na longa viagem até York, que fica cerca de 400 km da cidade sulista inglesa.

O trajeto de quase seis horas poderia ser cansativo e monótono, não fosse pela simpatia e bom humor dos cerca de 80 torcedores do ônibus e outras centenas que encontrei no estádio. Falarei sobre o jogo em si (derrota por 3 a 1 para os donos da casa) em outro post (http://arquibancadafclube.blogspot.co.uk/2016/04/mesmo-depois-de-duas-derrotas-seguidas.html). Dedicarei este para relatar a minha primeira experiência de viagem com torcedores na Europa.

A ”aventura” começou por volta das 10h30 de terça-feira (19), em frente ao Fratton Park, estádio do Portsmouth FC. Desde semana passada estou na cidade para cobrir o clube neste final de temporada, e o primeiro jogo foi no último sábado (16), na derrota para o Plymouth por 2 a 1 em casa pela League Two, a quarta divisão inglesa. Tradicional clube britânico e detetor de vários títulos importantes, como os bicampeonatos da primeira divisão e da FA CUP, o Pompey, como é chamado pela sua torcida, sofreu diversos baques administrativos desde 2009.

 

Depois de grandes elencos com estrelas do quilate de Kanu, Milan Baros e David James, o clube teve três rebaixamentos consecutivos após a derrota para o Chelsea na final da FA CUP em 2010, indo parar na quarta divisão, aonde permanece até o momento.

Com o caos administrativo, dirigentes presos com suspeitas de desviarem dinheiro do time e diversas outras trapalhadas, alguns torcedores com grana ou talento para finanças resolveram se unir para evitar a falência da equipe e fundaram o ”Pompey Supporters Trust”, literalmente comprando o Portsmouth através de Ações. Após duas temporadas sem muito brilho na League Two, o clube atualmente luta por uma vaga nos playoffs de acesso para a League One faltando cinco rodadas para o final da competição.

Essa mesma torcida, que acompanhou recentes momentos históricos do clube, como a vitória por 1 a 0 sobre o Manchester United de Cristiano Ronaldo por 1 a 0 em pleno Old Trafford, me acolhia agradavelmente para o percurso, rumo a mais um jogo na quarta divisão. O ônibus era confortável e as estradas inglesas, praticamente impecáveis, facilitaram a viagem.

Fiquei imaginando se tivesse optado em ir com credencial de jornalista, na monotonia que seriam esses 400km de ida e volta sem companhia. O boas vindas da tripulação veio através de um chá logo após me alocar no meu lugar, que continha um papel em cima com meu nome escrito. Fazia um bonito dia de sol, algo raro por aqui, e como ainda não conhecia ninguém da torcida, apenas acompanhei as conversas, mas sem interação.

 

Praticamente tudo do que ouvi eram assuntos ligados ao time, na fixação deles com a FA CUP, no goleiro frangueiro que não emplacou, nas falhas do jogo passado, dentre outros assuntos. As únicas experiências com grandes deslocamentos com a torcida visitante que tive foram no Brasil e não muito agradáveis.

Em 2010, na semifinal da Libertadores do São Paulo com o Inter no Beira Rio, e 2011, na final da Copa do Brasil do Vasco contra o Coritiba, no Couto Pereira, presenciei cenas de terror e violência. Brigas e tiros para o alto da polícia me fizeram abolir esse tipo de viagem, e os documentários sobre hooligans que tinha assistido só aumentavam meu receio, o que me fez deixar o notebook em casa.

Mas  ônibus era calmo e tranquilo, formado por torcedores “das antigas”, o que me fez relaxar sobre qualquer tipo de problema.

Paramos num tradicional pub inglês numa cidade próxima a Sheffield para almoçarmos e pude conhecer melhor os integrantes. A maioria tem entre 45 e 65 anos, são bem humorados e de bem com a vida. Um deles era Ray Breen, que sempre acompanha o clube nos jogos dentro e fora de casa há vários anos.

 

Para ele, os piores anos já passaram, e o clube está pronto para novos desafios. “Passamos por muitos problemas, mas queremos voltar a elite em breve. Essa torcida é diferenciada e apaixonada, merecemos isso”, disse, entre uns e outros goles em sua pint, como os ingleses chamam um grande copo de cerveja.

Enquanto eu esperava pela minha lasanha e tomava suco de laranja, fui questionado sobre o motivo de eu ser o único do ônibus a não beber (!?). Quando disse que quatro da tarde era “muito cedo”, o riso foi geral. Assim como os irlandeses, na Inglaterra é muito comum as pessoas beberem todo dia, mas eu definitivamente não consigo acompanhar esse ritmo.

                                                                                                 *

Difícil imaginar esse estilo de viagem no brasil, com torcedores comuns, de diferentes idades (os mais jovens estavam em outras conduções), indo para todos os jogos fora de casa por dois motivos principais: violência e carga horária de trabalho. Há vários anos o hooliganismo é combatido na Inglaterra, e apesar de ver alguns deles no meio das torcidas por aqui, vi poucas cenas de violência, o que facilitou esse tipo de torcedor nessas viagens, e não apenas os fanáticos, daqueles que largam a vida pelo clube, como acontece no Brasil.

Na Europa também é comum a negociação de horas e dias de trabalho/férias com o chefe, o que permite trabalhadores comuns se ausentarem por um dia no meio da semana com frequência, algo improvável em nosso país.

 

Voltando ao trajeto passamos por diversas cidades, o que me fez lembrar de vários filmes característicos da Inglaterra, com aquelas casas iguais e grandes fazendas. Depois de cochilar um pouco, o ônibus finalmente parou na cidade de York, quase na divisa com a Escócia, ao norte. Com larga história, cercado por castelos e muita cultura, é a casa do York City FC, pequeno clube local que já está rebaixado para a National League (quinta divisão) na próxima temporada.

Mesmo possuindo apenas um título da quarta divisão nos anos 80 e tendo uma péssima temporada na penúltima colocação durante quase todo o torneio, a torcida segue fiel, lotando 90% do estádio Bootham Crescent. Antes da partida, que seria desastrosa para o Pompey em termos de classificação, fomos a um pub ao lado do estádio.

E toma-te pints para a galera. Geralmente antes dos jogos sempre existe pelo menos um pub reservado para a torcida adversária, e este estava tomado por azul, a cor do clube, e diversos torcedores, de todas as idades e características. Por várias vezes entoavam cânticos da torcida, fazendo do lugar uma espécie de mini-Fratton Park. “É assim todo jogo.

O que você está vendo hoje acontece em todos os jogos do Pompey fora de casa”, disse Paul Allen, que acompanha o clube desde os anos 70. “Quando era menor, vi o time na quarta divisão também, e conseguimos superar essa fase ruim. Acredito na volta dos bons tempos em breve”, disse Allen, que permanecia sem enrolar uma palavra após vários copos de cerveja. Fui praticamente “obrigado” a tomar uma com eles, mas fiquei só no primeiro copo. É incrível a resistência dos ingleses com o álcool! Parece que nada é capaz de derrubá-los.

A mesma animação do pub vi no estádio, e mesmo com o placar adverso – 3 a 1 para o York – e duas derrotas seguidas, os torcedores voltaram sem maiores aborrecimentos para o ônibus, e entendi de cara o por que disso. Com as deduções de pontos que o time começava a cada temporada, desde a championship de 2011, o clube praticamente iniciava o campeonato rebaixado, e quando chegou na quarta divisão, a torcida teve que se contentar com o meio da tabela e sem muitas perspectivas.

Com o crescente apoio dos torcedores ao “Pompey Supporters Trust” e outros investimentos, o time conseguiu formar um elenco melhor este ano, chegando até a vislumbrar o acesso direto para a League One. Mas só o fato de conseguirem se classificar para os playoffs já representa muito para a torcida.

Nos últimos 10 anos, a montanha russa do Fratton Park começou com elencos memoráveis, duas finais de FA CUP (uma vencida em 2008), participação em torneios europeus e vitórias contra os melhores times do país deu lugar a rebaixamentos consecutivos e quase falência, sendo salvos por um projeto inovador dos próprios fans, a alma de qualquer grande equipe.

Estes mesmos torcedores que acompanhei em York e no jogo passado estiveram com o clube em todos esses momentos, nos melhores e piores, rebaixados ou na elite. Para essas pessoas, o Portsmouth FC é muito mais que um clube. Ele faz parte de suas vidas.

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