torcida Paysandu

Curuzu, minutos antes de Paysandu 4×2 Santa Cruz.

“Temporada 2017 chegando ao fim para o Paysandu, e eu aqui, assim como na maioria dos jogos, sendo presença cativa na Curuzu ou Mangueirão. A primeira sensação que tive quando cheguei foi aquela de fim de festa (pra quem é ou já foi baladeiro, sabe o que quero dizer). A tarde de sábado ensolarada, lembrou-me um certo sábado de 2001, quando o Paysandu sagrou-se pela segunda vez campeão de um título nacional. Hoje, a realidade passa muito longe daquele momento vivido pela Nação Bicolor que vivia naquele tempo um estado de euforia avassaladora.

Chegávamos a ser antipáticos perante a torcida rival, que tinha que engolir a seco as nossas conquistas. Porém, o ano de 2017 nos mostrou o outro lado do que é ser um torcedor bicolor apaixonado. O lado da tristeza  e da indignação de ver um time aquém das grandes formações vencedoras que tivemos.

Nem mesmo o título estadual foi capaz de encobrir as limitações do elenco bicolor, aos olhos daquele torcedor mais observador. Um título conquistado no último minuto do jogo, contra um adversário teoricamente mais fraco, tanto em termos de estrutura quanto de qualidade técnica. Um campeonato que, ao meu ver, era pra ter sido conquistado com um pé nas costas.

Mas enfim, veio o título e junto com ele o canto da sereia que enfeitiça o apaixonado torcedor, fazendo-o crer que com uns ajustes aqui e outro ali, o ano poderia ser promissor. Mas, o primeiro sinal de que não tava nada bem foi dado pela perda do título da Copa Verde para o Luverdense. Sim, esse mesmo Luverdense que foi rebaixado para a série C. Mas mesmo assim, a nau bicolor seguia adiante. À frente, seu comandante tinha a convicção que estávamos indo no caminho certo e que não haveria tempo ruim que pudesse fazê-lo mudar a rota.

Começa a série B. Para grande surpresa e superando todas as expectativas, o pavilhão bicolor, como um verdadeiro cavalo árabe puro sangue disparou na frente , assumindo desde cedo a primeira colocação. Mas foi só o campeonato pegar corpo e mostrar o quão é competitiva a série B, que a conta chegou para o comando bicolor. Os atletas que já estavam aqui no campeonato paraense, sentiram a dura competição e as contratações que foram feitas, sem exceção, decepcionaram o torcedor.

Aquela expectativa de ascender ao tão seleto grupo dos 20 melhores clubes do Brasil ia se dissipando a cada rodada. O Paysandu sofria muito pra vencer, não houve um ponto conquistado pelo time nessas 36 rodadas (contando até antes do jogo com o Santa Cruz) que não tenha sido extraído a fórceps do adversário.

O quanto foi difícil vencer e convencer. Mas como todo apaixonado, se vencesse bastava. O que importava eram os três pontos na conta. Pra mim o time decepcionou, embora eu tenha que reconhecer que alguns jogadores, apesar da deficiência técnica, tinham brilho nos olhos e  entrega.

Mas o futebol hoje em dia é bem mais do que isso. Falando de jogadores, pra mim o único destaque e digno de ser reconhecido como um bom jogador foi o Bergson. Quanto aos demais, todos em algum momento me decepcionaram, então prefiro não dar  nome por nome pra não cometer injustiças. Em razão disso, tudo o que foi essa temporada atropelada, se tiver que apontar um responsável apontaria o dedo para o comando de futebol do Paysandu, que não teve a competência ou a sorte necessária na hora de contratar.

E o resultado dessa temporada cambaleante foi a ausência da torcida, dos gritos de guerra entusiasmados, pois mesmo quando o público era bom, o time não conseguia empolgar nem o mais fanático torcedor. Admiro muito a galera da Alma Celeste pelo empenho em torcer pelo Paysandu acima de tudo e  qualquer circunstância.

E finalmente, o que fica pra mim dessa temporada, diante de tudo o que aconteceu,  é o que  bem diz um de nossos gritos de guerra: “Vou te apoiar. Seja onde for. Vai ser assim até o dia em que eu morrer”. Nos vemos em 2018, Papão!” ( por Gérson Rocha, funcionário público e torcedor bicolor, 49 anos)

 

Um oferecimento: Academia Body in Shape

 

 

Paysandu x Brasil 2

 

O Paysandu já fez história nessa série B. Bateu seu recorde de vitórias fora de casa em um campeonato de pontos corridos. Já foram 6 triunfos na casa dos adversários. Em 2015, quando chegou a brigar pelo acesso, ele havia conseguido apenas 4 vitórias fora de casa.

Por outro lado, o time faz uma de suas piores campanhas em casa. Dos 11 jogos na Curuzu até aqui, o Paysandu conseguiu 4 vitórias, 4 empates, e sofreu 3 derrotas, com um aproveitamento de 48,48%. No Mangueirão, o retrospecto é ainda pior. Foram apenas 2 vitórias, 2 empates e 3 derrotas, com um pífio aproveitamento de 38,1%

Por trás dessa árida estatística, há que se refletir. O que pode justificar esse complexo de vira-lata que parece ter assolado o time bicolor nesse campeonato? O termo “complexo de vira-lata” foi criado por Nelson Rodrigues ( ave!) nos anos 50. Segundo o cronista, o brasileiro passou a ser acometido pela tal síndrome depois da derrota visceral para o Uruguai na Copa de 50. Foi ali que todo integrante da pátria de chuteiras, jogador ou torcedor, passou a duvidar de si mesmo.

E é exatamente isso que parece acontecer com o Paysandu nos jogos em Belém. Com as orelhas a meio pau, os jogadores frequentemente esquecem de aguçar os sentidos, e compensar a falta de técnica com a valentia. O resultado foi o que vimos neste último sábado, em mais uma derrota na Curuzu, dessa vez para o Brasil de Pelotas, por 3 x 2.

Mas quando se cobra garra, esse clichê óbvio ululante, é preciso tentar decifrar o ser humano que está por trás do jogador. Por trás da falha de Emerson no primeiro gol, pode estar uma falta de segurança psicológica por estar em um elenco inferior ao de outros anos. A alma do jogador bicolor parece combalida. Vide a reação de Diogo Oliveira ao ser vaiado na saída de campo, quando foi substituído, e ter tapado os ouvidos, afrontando a torcida.

Para zerar qualquer possibilidade de queda, o Paysandu precisa de mais um pontinho. O próximo jogo, nesta terça-feira, será tão duro quanto uma rapadura. Os bicolores enfrentam um Ceará que quer carimbar a ascensão à série A dentro de casa. A pressão para o time alvi-negro vencer em Fortaleza é ainda maior quando se lembra que o vovô alencarino vem de dois empates em seus domínios.

Mas como o complexo de vira lata bicolor é enxotado nos jogos longe de Belém, um bom resultado em Fortaleza não será surpreendente. A última crônica escrita por Nelson Rodrigues na qual falava sobre o complexo de vira lata foi às vésperas da estreia do Brasil na Copa de 58, conquistada pela Seleção Canarinho.

Falar sobre a síndrome da inferioridade acabou ajudando a espantar esse trauma psicológico, e o Brasil levantou sua primeira taça mundial.

Então, que o tal complexo canino seja definitivamente esquecido pelo Paysandu nesta terça-feira. Mais do que um ponto, por que não sonhar com a vitória? Seria a sétima conquistada fora de casa nesse campeonato, com o Papão pintando o 7 no novembro azul, o mês dedicado à conscientização sobre o câncer masculino. O mais eficiente dos remédios para corações em frangalhos pelas intempéries de um time que deveria ser proibido para cardíacos.

Pela saúde mental e cardiológica de seus torcedores, e pela memória do querido camarada Paulo Fonteles, bicolor de quatro asinhas, hoje no céu, que mais essa profecia se realize. Maktub!

 

 

 

bergson

(Foto: Fernando Torres)

Amo as palavras tanto quanto odeio os números. Esses pestinhas me perseguem desde a escola, quando a boa aluna de redação escondia o boletim da mãe para ela não ver as notas ensanguentadas do vermelho vergonha em matemática. Argh! Só de ouvir o nome, tenho espasmos.

Uns tantos números de anos depois, os algarismos numéricos continuaram a me atormentar. Como jornalista esportiva, todo campeonato nacional era a mesma coisa. Remo e Paysandu passando sufoco na competição, e a repórter em apuros agarrada à maquina de calcular, para informar com precisão. Com quantos pontos escapa do rebaixamento? 47? Não, com esse número não dá mais, o time x venceu ontem…Ah tá! Então, pega a máquina aí de novo…3,2,1, gravando..” Com esse resultado, o Paysandu precisa agora de tantos pontos para fugir da zona de rebaixamento e garantir a tão sonhada permanência na série B”

 As indefectíveis calculadoras sempre fizeram parte da rotina de jornalistas esportivos e torcedores paraenses. E nesse Deus nos acuda, os números de vez em quando nos pregavam peças, como anjos zombateiros a saracotear pelos gramados. Não é preciso explicar aqui o que o 7 representa para o torcedor bicolor, e o que o 33 ( urgh!) significa para o azulino.

Pois bem, amigos, nesta última rodada da série B, a de número 33 ( urgh!), o Paysandu se viu marcado, cabalisticamente ou não, por esse número 3. Ao tropeçar na Curuzu e não passar de um empate em 1 x com o Vila Nova-GO, o time está a 3 pontos da permanência na série B, e a 3 pontos da zona de rebaixamento. Quanta bobagem! Não, quando se pode afirmar que o que faltou para os bicolores terem saído do jogo com uma vitória e espantado o fantasma da queda, foi um tantinho de sorte!

Sim, a sorte existe. Como no icônico “Match Point”, de Woody Allen, ela pode determinar um destino. É como em um jogo de tênis, no qual a bola bate na rede e pode cair de um lado ou de outro, selando um resultado.

Contra o Vila Nova, no tal jogo da fatídica rodada 33, o Paysandu merecia um melhor resultado. Foi claramente prejudicado pela arbitragem, que não marcou uma falta explícita do zagueiro do time goiano no goleiro Emerson, no lance que originou o gol do Vila.

Faltou sorte principalmente no segundo tempo quando, diferente de outros jogos, o Paysandu não se acomodou depois do empate e buscou a vitória até o fim. Houve entrega, houve disposição, só não houve o segundo gol. O Sobrenatural de Almeida, de Nelson Rodrigues, brincou de pira na Curuzu e fez a bola não entrar na rede do goleiro Luis Carlos.

A torcida bicolor, cuja paciência está longe de ser o ponto forte, entendeu e se comportou de maneira atípica da dos últimos jogos. Não houve vaias. Faltou apenas a tal sorte. Estava tudo certo então, como 2 e 2 são 5.

Mas nesta terça-feira, contra o Náutico, lá no Recife, o mesmo número 3 que atormenta o Papão poderá ser a bolinha de tênis que cai do lado certo, depois de bater na rede. Mais 3 pontos conquistados e o Paysandu, teoricamente, respira aliviado.

E o elemento decisivo pode ter um nome: Bergson.  A lei do ex pode funcionar mais uma vez. No primeiro jogo entre Paysandu x Náutico nesta série B, em Belém, os bicolores venceram o time pernambucano por 1 x 0, com gol dele: Bergson, de pênalti. O mesmo Bergson que saiu do Náutico em lua de fel com a torcida pernambucana, e chegou ao Paysandu desacreditado. O mesmo Bergson, que só nesta temporada já marcou 23 gols, mesmo número de gols marcados pelo Náutico em toda a série B, até a 32º rodada.

Que rolem os dados, Papão! Não esquecendo nunca que a sorte também é questão de competência. Match Point!

dado-cavalcanti

O time bicolor desembarcou em Belém, na tarde desta quarta-feira, 11, na mesma hora de 14 anos atrás. Em 2002, o Paysandu trazia o troféu de Campeão dos Campeões e carimbava o passaporte para uma inédita Libertadores da América. A cronista que vos escreve aqui era a repórter de TV que recebeu os jogadores no aeroporto e mostrou, ao fundo, a sala de embarque internacional, dizendo: “A partir de agora, essa cena vai virar rotina. O Paysandu Sport Clube passa a ser um time internacional, desbravando a América. Que venha a Libertadores!”

Pois bem, senhores, o ciclo do campeão se repete. O Paysandu volta de Brasília trazendo o troféu da Copa Verde, no mesmo horário da volta de Fortaleza, onde conquistou a Copa dos Campeões. E mais uma vez, ganha o direito de disputar uma competição internacional. A Sul Americana não tem o mesmo glamour de uma Libertadores, mas quem liga pra isso? “Soy loco por ti, América!”, grita o torcedor bicolor, que assim como em 2002, enfrentou o sol de rachar catedrais para receber os comandados de Dado Cavalcante no aeroporto e segui-los em carros, bicicletas, a pé ou de qualquer outro jeito. A torcida que traz no escudo da camisa aqueles pezinhos com asas não liga pra distância, muito menos para a altura dos sonhos. Ela se transporta para aonde ela quer e chega onde o coração manda. Hoje, eles queriam apenas chegar à Curuzu, para reverenciar seus heróis. Mas em breve, querem chegar muito mais longe. Por que não?

O Paysandu estreia na série B no próximo sábado, 14, contra o Ceará, em Fortaleza, com um time ainda precisando de muitos retoques e peças pontuais. Mas traz um técnico que, agora sim, parece pronto para alçar vôos mais seguros, com as asinhas aladas que aparecem no escudo bicolor. Ano passado, Dado Cavalcante perdeu dois títulos em menos de duas semanas para o maior rival. Muitos grunhiam por sua demissão. Mas se você achava que ele estava derrotado, viu que os dados de Dado ainda rolaram, provando, como na música de Cazuza, que realmente o tempo não pára. O presidente Alberto Maia acreditou no dia seguinte de Dado Cavalcante. Esse dia seguinte demorou mais de um ano, mas veio. Dado conquistou dois títulos em quatro dias. Parece que o jogo virou, amigos. E a música também. A preferida do treinador bicolor é “Poder da Criação”, de João Nogueira. Parece mais uma profecia do que esperava o jovem técnico pernambucano, nesses últimos dias, em busca da afirmação. Diz assim:

“Não, ninguém faz samba só porque prefere
Força nenhuma no mundo interfere
Sobre o poder da criação
Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito
Nem se refugiar em lugar mais bonito
Em busca da inspiração
Não, ela é uma luz que chega de repente
Com a rapidez de uma estrela cadente
E acende a mente e o coração
É, faz pensar
Que existe uma força maior que nos guia
Que está no ar
Vem no meio da noite ou no claro do dia
Chega a nos angustiar
E o poeta se deixa levar por essa magia
E um verso vem vindo e vem vindo uma melodia
E o povo começa a cantar!” ( É CAMPEÃO!!)

E é com essa força invisível, do poder da criação, que Dado Cavalcante pretende levar esse lobo novamente a se aventurar na América. No mínimo, mais de 500 mil reais estão garantidos nos cofres bicolores pela participação na primeira fase da Sul Americana. O time perdeu a invencibilidade de 25 jogos. Sim, e daí? O que fica pra história é esse título inédito, que há 3 anos batia na trave dos times paraenses. E o direito de ser novamente um clube com pose internacional, para levar, enfim, seus torcedores e seus pezinhos de asas para onde eles quiserem. Porque, afinal, como Mário Quintana um dia escreveu: “Viver é acalentar sonhos e esperanças, fazendo da fé a nossa inspiração maior. É buscar nas pequenas coisas, um grande motivo para ser feliz!” Simples assim. Como a poesia de Quintana. Como o futebol.

Screenshot_2016-04-24-12-26-51-1

Foto: Assessoria de Imprensa Paysandu

Como presente de grego do destino, amanheci o sábado do Re x Pa  com conjuntivite nos dois olhos. Pequeninos e tortos, os bichinhos mal conseguiam ficar abertos, tamanho grau da infecção. Pânico na jornalista esportiva em um dia de seu jogo favorito, decidindo uma vaga pra final da Copa Verde e na véspera da decisão do segundo turno do Parazão, na qual estaria trabalhando, pela TV Cultura. Meu oftalmologista cortou logo o barato: 5 dias de tratamento intensivo, com colírio antibiótico e  sem direito a lentes de contato. Aaah, ok, tudo bem, use seus óculos, é tão charmoso, diria você, solidário leitor. Seriam… Não quando se tem 15 graus de miopia a serem exibidos na lente fundo de garrafa de cerveja e ainda por cima estão com as hastes quebradas!

Mas o que você tem a ver com meu drama nesse final de semana? Nada! Mas tem a ver com o Re x Pa que me trouxe, durante 90 minutos, a alegria de voltar a enxergar o futebol com olhos de encanto. Há muito tempo, muito tempo mesmo, não sabia o que era isso. Pois bem, amigos, eu diria que quem não assistiu ao Re x Pa desse sábado, perdeu um dos melhores clássicos dos últimos tempos. A conjuntivite doía quando vi o goleiro bicolor Emerson defender com a ponta dos dedos o chute de Marco Goiano. Rapidinho, me anestesiei. Com as mãos trêmulas, equilibrando os óculos sem hastes no nariz, pensei : “Esse Re x Pa promete!” Prometia e cumpriu.

Vimos valentia, vimos um Augusto Recife, com quase 40 anos, implacável na marcação de um maestro Eduardo Ramos, que mesmo assim ainda ensaiou um chapéu durante o segundo tempo. Palmas para o talento da estrela solitária da companhia azulina. O Remo, até a expulsão de Max, até por precisar vencer, levava maior perigo, mesmo com as investidas “pensas” de Levy em cima de um perdido Raí na lateral. Com a entrada de Silvio, o paraense que um dia chegou a trabalhar como padeiro, o Leão equilibrou os lados. Foi de Silvio o cruzamento para o gol contra de Lombardi. Ma oooe!, gol “SBT”, para explodir o clássico campeão de audiência.

Meus olhos já não ardiam mais de dor, varavam de luz. Os óculos chegaram a cair quando vi as canetas de Fabinho Alves e do Imperador Luis Carlos. Sim, o Re x Pa teve lances de puro talento! Teve emoção, com o choro de Betinho, saindo de campo, derrotado pela dor de uma contusão, depois de marcar o primeiro gol para o Paysandu. O banco de reservas bicolor, inteiro, foi consolar o artilheiro do jogo na beira do gramado. Teve surpresa, quando Ciro voltou a marcar e jogar bem, se doando em campo, jogando pelos lados e centralizando, depois que Silvio entrou. Teve senso de coletividade, quando Cearense deixou de concluir a jogada para rolar a bola, marotamente, para Raí fazer o terceiro gol. Teve uma festa linda das duas torcidas, se revezando entre um comovente “Eu acredito” e o provocativo “olé”

E, finalmente, teve a pedalada de Raí, o tão criticado Raí do primeiro tempo, ineficiente na marcação, mas que depois da entrada de Rodrigo Andrade (a atuação do menino da base também foi de encher os olhos), foi decisivo. Antes da pedalada, ainda houve o drible, para então pedalar e golpear mortalmente o rival no pescoço, na comemoração do gol. Foi aí que esfreguei meus olhos, que jorravam uma branca hemorragia de alegria , para ter a certeza. Estava eu diante de um Re x Pa com requintes de cura momentânea.

Chico Buarque cantou que “os poetas, como os cegos, sabem ver na escuridão”, Nesse 23 de abril, estava quase cega, mas a beleza desse jogo inesquecível me trouxe a poesia de volta. Mesmo em meio à escuridão. Bendito e clarividente Re x Pa!

A Inglaterra, assim como a Argentina e Alemanha, são países conhecidos por terem um futebol local forte e torcedores apaixonados. Já estive em Buenos Aires e vi alguns jogos na Europa com torcida visitante da Alemanha, e somados com várias partidas que vi na Inglaterra, de times das cinco principais divisões, tive a real dimensão do que os clubes representam para seus fans. Diferente do Brasil, em que o se o time perder três jogos o público no estádio cai drasticamente, nesses locais, não importa a divisão ou posição do time na tabela, o futebol possui um significado mais amplo.

Já cansei de ver time perder de goleada em casa e ser aplaudido, time rebaixado para a última divisão lotar estádio e médias de público maiores que de times da série A do Brasileirão de equipes com títulos no currículo. No meu segundo jogo cobrindo o Portsmouth FC optei por acompanhar a torcida do Pompey na longa viagem até York, que fica cerca de 400 km da cidade sulista inglesa.

O trajeto de quase seis horas poderia ser cansativo e monótono, não fosse pela simpatia e bom humor dos cerca de 80 torcedores do ônibus e outras centenas que encontrei no estádio. Falarei sobre o jogo em si (derrota por 3 a 1 para os donos da casa) em outro post (http://arquibancadafclube.blogspot.co.uk/2016/04/mesmo-depois-de-duas-derrotas-seguidas.html). Dedicarei este para relatar a minha primeira experiência de viagem com torcedores na Europa.

A ”aventura” começou por volta das 10h30 de terça-feira (19), em frente ao Fratton Park, estádio do Portsmouth FC. Desde semana passada estou na cidade para cobrir o clube neste final de temporada, e o primeiro jogo foi no último sábado (16), na derrota para o Plymouth por 2 a 1 em casa pela League Two, a quarta divisão inglesa. Tradicional clube britânico e detetor de vários títulos importantes, como os bicampeonatos da primeira divisão e da FA CUP, o Pompey, como é chamado pela sua torcida, sofreu diversos baques administrativos desde 2009.

 

Depois de grandes elencos com estrelas do quilate de Kanu, Milan Baros e David James, o clube teve três rebaixamentos consecutivos após a derrota para o Chelsea na final da FA CUP em 2010, indo parar na quarta divisão, aonde permanece até o momento.

Com o caos administrativo, dirigentes presos com suspeitas de desviarem dinheiro do time e diversas outras trapalhadas, alguns torcedores com grana ou talento para finanças resolveram se unir para evitar a falência da equipe e fundaram o ”Pompey Supporters Trust”, literalmente comprando o Portsmouth através de Ações. Após duas temporadas sem muito brilho na League Two, o clube atualmente luta por uma vaga nos playoffs de acesso para a League One faltando cinco rodadas para o final da competição.

Essa mesma torcida, que acompanhou recentes momentos históricos do clube, como a vitória por 1 a 0 sobre o Manchester United de Cristiano Ronaldo por 1 a 0 em pleno Old Trafford, me acolhia agradavelmente para o percurso, rumo a mais um jogo na quarta divisão. O ônibus era confortável e as estradas inglesas, praticamente impecáveis, facilitaram a viagem.

Fiquei imaginando se tivesse optado em ir com credencial de jornalista, na monotonia que seriam esses 400km de ida e volta sem companhia. O boas vindas da tripulação veio através de um chá logo após me alocar no meu lugar, que continha um papel em cima com meu nome escrito. Fazia um bonito dia de sol, algo raro por aqui, e como ainda não conhecia ninguém da torcida, apenas acompanhei as conversas, mas sem interação.

 

Praticamente tudo do que ouvi eram assuntos ligados ao time, na fixação deles com a FA CUP, no goleiro frangueiro que não emplacou, nas falhas do jogo passado, dentre outros assuntos. As únicas experiências com grandes deslocamentos com a torcida visitante que tive foram no Brasil e não muito agradáveis.

Em 2010, na semifinal da Libertadores do São Paulo com o Inter no Beira Rio, e 2011, na final da Copa do Brasil do Vasco contra o Coritiba, no Couto Pereira, presenciei cenas de terror e violência. Brigas e tiros para o alto da polícia me fizeram abolir esse tipo de viagem, e os documentários sobre hooligans que tinha assistido só aumentavam meu receio, o que me fez deixar o notebook em casa.

Mas  ônibus era calmo e tranquilo, formado por torcedores “das antigas”, o que me fez relaxar sobre qualquer tipo de problema.

Paramos num tradicional pub inglês numa cidade próxima a Sheffield para almoçarmos e pude conhecer melhor os integrantes. A maioria tem entre 45 e 65 anos, são bem humorados e de bem com a vida. Um deles era Ray Breen, que sempre acompanha o clube nos jogos dentro e fora de casa há vários anos.

 

Para ele, os piores anos já passaram, e o clube está pronto para novos desafios. “Passamos por muitos problemas, mas queremos voltar a elite em breve. Essa torcida é diferenciada e apaixonada, merecemos isso”, disse, entre uns e outros goles em sua pint, como os ingleses chamam um grande copo de cerveja.

Enquanto eu esperava pela minha lasanha e tomava suco de laranja, fui questionado sobre o motivo de eu ser o único do ônibus a não beber (!?). Quando disse que quatro da tarde era “muito cedo”, o riso foi geral. Assim como os irlandeses, na Inglaterra é muito comum as pessoas beberem todo dia, mas eu definitivamente não consigo acompanhar esse ritmo.

                                                                                                 *

Difícil imaginar esse estilo de viagem no brasil, com torcedores comuns, de diferentes idades (os mais jovens estavam em outras conduções), indo para todos os jogos fora de casa por dois motivos principais: violência e carga horária de trabalho. Há vários anos o hooliganismo é combatido na Inglaterra, e apesar de ver alguns deles no meio das torcidas por aqui, vi poucas cenas de violência, o que facilitou esse tipo de torcedor nessas viagens, e não apenas os fanáticos, daqueles que largam a vida pelo clube, como acontece no Brasil.

Na Europa também é comum a negociação de horas e dias de trabalho/férias com o chefe, o que permite trabalhadores comuns se ausentarem por um dia no meio da semana com frequência, algo improvável em nosso país.

 

Voltando ao trajeto passamos por diversas cidades, o que me fez lembrar de vários filmes característicos da Inglaterra, com aquelas casas iguais e grandes fazendas. Depois de cochilar um pouco, o ônibus finalmente parou na cidade de York, quase na divisa com a Escócia, ao norte. Com larga história, cercado por castelos e muita cultura, é a casa do York City FC, pequeno clube local que já está rebaixado para a National League (quinta divisão) na próxima temporada.

Mesmo possuindo apenas um título da quarta divisão nos anos 80 e tendo uma péssima temporada na penúltima colocação durante quase todo o torneio, a torcida segue fiel, lotando 90% do estádio Bootham Crescent. Antes da partida, que seria desastrosa para o Pompey em termos de classificação, fomos a um pub ao lado do estádio.

E toma-te pints para a galera. Geralmente antes dos jogos sempre existe pelo menos um pub reservado para a torcida adversária, e este estava tomado por azul, a cor do clube, e diversos torcedores, de todas as idades e características. Por várias vezes entoavam cânticos da torcida, fazendo do lugar uma espécie de mini-Fratton Park. “É assim todo jogo.

O que você está vendo hoje acontece em todos os jogos do Pompey fora de casa”, disse Paul Allen, que acompanha o clube desde os anos 70. “Quando era menor, vi o time na quarta divisão também, e conseguimos superar essa fase ruim. Acredito na volta dos bons tempos em breve”, disse Allen, que permanecia sem enrolar uma palavra após vários copos de cerveja. Fui praticamente “obrigado” a tomar uma com eles, mas fiquei só no primeiro copo. É incrível a resistência dos ingleses com o álcool! Parece que nada é capaz de derrubá-los.

A mesma animação do pub vi no estádio, e mesmo com o placar adverso – 3 a 1 para o York – e duas derrotas seguidas, os torcedores voltaram sem maiores aborrecimentos para o ônibus, e entendi de cara o por que disso. Com as deduções de pontos que o time começava a cada temporada, desde a championship de 2011, o clube praticamente iniciava o campeonato rebaixado, e quando chegou na quarta divisão, a torcida teve que se contentar com o meio da tabela e sem muitas perspectivas.

Com o crescente apoio dos torcedores ao “Pompey Supporters Trust” e outros investimentos, o time conseguiu formar um elenco melhor este ano, chegando até a vislumbrar o acesso direto para a League One. Mas só o fato de conseguirem se classificar para os playoffs já representa muito para a torcida.

Nos últimos 10 anos, a montanha russa do Fratton Park começou com elencos memoráveis, duas finais de FA CUP (uma vencida em 2008), participação em torneios europeus e vitórias contra os melhores times do país deu lugar a rebaixamentos consecutivos e quase falência, sendo salvos por um projeto inovador dos próprios fans, a alma de qualquer grande equipe.

Estes mesmos torcedores que acompanhei em York e no jogo passado estiveram com o clube em todos esses momentos, nos melhores e piores, rebaixados ou na elite. Para essas pessoas, o Portsmouth FC é muito mais que um clube. Ele faz parte de suas vidas.